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Comportamento, Opinião, Todos

O feminismo, a submissão de Mara e as princesas de Sarah Sheeva

A imagem acima chegou até mim via Facebook e mostra como ainda se mantém vivo e desejável por uma parcela de mulheres o pensamento conservador e moralista que se antes era uma imposição à todos os seres nascidos com o sexo feminino, hoje é uma escolha consciente que encontra reforço principalmente nos adeptos do protestantismo evangélico. Resquícios de um tempo não muito distante cujos protagonistas e seus substitutos ainda propagam este tipo de pensamento? Não sei. Mas mais assustador do que ver mulheres livres  e emancipadas pregando que não o feminismo não passa de um embuste e não devem nada a ele, são mulheres que não apenas também acreditam nisso mas nem ao menos livres querem ser. E livre aqui quer dizer autônoma. Preferem ver a si próprias como seres inferiores e incapazes de serem protagonistas tanto na vida social quanto no relacionamento afetivo. O maior erro, talvez, seja acreditar que necessariamente alguém precisa ser o “cabeça” de uma relação ou o “suporte” por trás desta cabeça. Aquela velha história da “grande” mulher por trás do “grande homem”.

Há pouco tempo a pastora Sarah Sheeva apareceu e diversas matérias na mídia com o seu “Culto das Princesas”, onde prega um estilo de vida ilusório e distorcido, induzindo as mulheres a acreditarem que são “princesas” (nos moldes daquelas que só existem nos contos de fadas) e como tal não devem começar um relacionamento com beijo na boca (deve-se esperar no mínimo 8 meses orando e conversando com o pretendente) e sexo, obviamente, só depois do casamento. Homens que não estão dispostos a isto são “cachorros” e mulheres que não buscam um relacionamento duradouro, idem. Cai muito bem com a velha ideia de que sexo é perversão, de que os impulsos sexuais são fraquezas de espírito e serve ao argumento machista de que mulher que gosta de sexo não presta. Mas o mais interessante é que os argumentos de Sarah são convincentes porque ela usa da retórica feminista de que não apenas a mulher estaria assumindo o protagonismo da sua vida sentimental ( neste caso, em colocar regras e não ceder aos apelos masculinos) mas também se valorizando, em uma cultura onde a mulher é vendida como objeto de consumo e exposta aos mais diversos constrangimentos (vale ler o texto: A mulher careca e o desrespeito disfarçado de diversão: aqui).

Dessa forma, como não raro acontece, as bandeiras dos movimentos político-sociais como o feminismo são esvaziadas e confundidas com o moralismo asséptico do chamado “politicamente correto”, este hipócrita e geralmente calcado em preceitos religiosos que servem apenas para manter as rédeas do rebanho. Mas perceba que quando Sarah Sheeva aparece  vestida com roupas dos anos 50 dizendo que “Princesa moderna não usa rosa, usa azul” e que “Não uso decote, aqui não tem amostra grátis” (aqui), está se apropriando de debates feministas como o que a blogueira Lola Aronovich chamou de “Código Rosa”, (“Mas, voltando à codificação do rosa: na Alemanha nazista, os prisioneiros gays eram identificados com um triângulo rosa. É horrível, mas o objetivo dos nazistas era bastante igual ao nosso: rotular para fácil identificação. É pra isso que a gente cobre um bebê de rosa, pra que ninguém corra o risco, nem por um segundo, de confundir a menina com um menino (e, principalmente, um menino com uma menina, já que o pior que pode acontecer na vida de um menino é ser confundido com menina.)“, diz em seu post), e também o repúdio à mercantilização do corpo feminino, ignorando não apenas a influência de Coco Channel para o vestuário feminino, como a conscientização sobre a figura da mulher na sociedade, apenas para convencê-las a permanecerem presas ao antiquado papel de “moça de família”.

Em outras palavras, um retrocesso ao pensamento machista que imperou até meados dos anos 60, quando mulheres eram juridicamente vinculadas ao pai ou marido e, sendo propriedade deles, deveriam se dar ao respeito e não serem confundidas com as meretrizes que buscavam nas ruas. “A lei mudou (hoje vige a igualdade entre os sexos), mas as questões culturais e religiosas continuam presas aos moldes antigos, mantendo uma espécie de acordo tácito: mulheres são propriedade de um homem, e um homem de respeito não deve se meter na propriedade alheia. Pra isso, é necessário um código que defina a propriedade. Alianças de casamento (que só recentemente passaram a ser usadas por homens também), tratamento cerimonioso com colegas do sexo feminino que sabidamente sejam casadas ou comprometidas, “brincadeiras” sobre a necessidade de vigilância constante das mulheres casadas para que não pulem a cerca, e roupas e atitudes desejáveis para cada estado civil”, escreveu a bacharel em direito Cynthia Semíramis, em seu blog.

Tal retrocesso encontra força nos numerosos círculos religiosos, cada vez mais presentes no nosso cotidiano e mais influentes politicamente, e pude testemunhar com meus próprios olhos ao ser convidada para um casamento em uma igreja evangélica em que para respeitar as tradições do noivo, não-evangélico, fizeram um ritual onde ao dividir um pão a parte do casal que ficasse com o maior pedaço seria aquela que guiaria a relação. A noiva conseguiu o pedaço maior, sob aplausos de aprovação e o pastor logo interveio descontraídamente dizendo que por ser tratar de um casamento cristão, obviamente que a esposa saberia cumprir suas funções (ou qualquer coisa do gênero, que me fez ficar estarrecida). Quando presenciamos uma situação como esta, fica muito mais fácil perceber que a submissão pregada por Mara é muito mais comum e está muito mais estabelecida do que parece e o que me preocupa é que o moralismo é tanto que leva a completa desvalorização do próprio gênero, fazendo com que uma mulher sinta-se feliz servindo como empregada, secretária e boneca inflável, pois acredita que, assim, estará cumprindo o seu papel. Algo que Simone de Beauvoir já havia nos alertado há muitos anos: não nascemos mulheres, mas nos tornamos mulheres; e isso significa que ao nascermos sob o sexo feminino estamos condenadas a ser o que a sociedade feita por homens e para homens quer que sejamos. Resta entender porque algumas mulheres ainda se contentam com isso.

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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