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Comportamento, Opinião, Todos

Precisamos de mais Elisas

No dia 21 de março aconteceu na Praça da Sé, em São Paulo, o Ato do Bispo, onde um grupo de cristãos se reuniu para protestar contra a legalização do aborto (que, diga-se de passagem, parece estar longe ainda de se tornar uma realidade no Brasil).

Pois eis que a ativista feminista Elisa Gargiulo, líder da banda Dominatrix, compareceu ao ato para realizar um manifesto pacífico e silencioso com uma intenção muito clara: lembrar-nos de todas as mulheres mortas em decorrência do aborto inseguro feito ilegalmente no país. Ora, nada mas coerente em um evento autodenomidado “pró-vida”, que parece esquecer-se de que, além das controvérsias envolvendo o conceito de “vida”, esta também vai além do útero materno e se mostra como um problema muito mais complexo do que o ato de interromper uma gravidez. Para não fugir à questão do aborto, é curioso que determinados grupos resolvam fechar os olhos para as questões que levam mulheres a abortar e as condições com que ricas e pobres o fazem. Quem está comprometido com a “vida”, deveria se preocupar com as circunstâncias físicas, contextuais, psicológicas, financeiras e emocionais de cada mulher que busca solução no aborto; perceber que  julgá-las assassinas não impede que o ato seja realizado, seja em clínicas ou com chás, agulhas e comprimidos e entender que criminalizá-las apenas gera mais morte, e tenho certeza que nenhuma mulher que opta pelo aborto merece morrer. Mas estas mortes não interessam aos grupos religiosos; provavelmente acreditam ser algum castigo perverso de Deus.

Voltando à Elisa, seu protesto foi tão perturbador que logo gerou reações em ultraconservadores, como o colunista da Veja. Tentando ridicularizá-la, este senhor copiou uma mensagem que Elisa escreveu no Facebook e tentou contradizê-la, dizendo que não havia sofrido nenhuma violência. Pois aqui com meus botões, eu penso que a violência se apresenta em diversas versões e muitas delas sutis, sendo tão perigosas e preocupantes como a violência escancarada de ouvir uma ofensa ou levar um soco na cara. Vendo o vídeo, noto um rapaz, maior e mais forte que Elisa, ficar literamente em cima dela, tentando “calar” o seu cartaz. Noto também a aproximação intimidadora de várias pessoas, que cercam Elisa – sozinha -, como forma de obrigá-la a se retirar, enquanto uma senhora grita coléricamente.

Logo eu penso se essas pessoas, e esta senhora em especial, seriam também pessoas que fazem alguma coisa pelas crianças abandonadas, pelas crianças que vivem nas ruas, pelas crianças obrigadas a trabalhar, pelas crianças que vivem na miséria. Se seriam pessoas a favor da pena de morte, da redução da maioridade penal, se dizem que “bandido bom é bandido morto”. Porque geralmente é assim que acontece. Se essas pessoas não se importam com as vidas das mães que chamam de assassinas, geralmente não se importam com a vida de nenhuma pessoa a quem julgam “marginal”, o que me parece uma ironia – para não dizer hipocrisia – assustadora. Porque os fetos se tornam bebês. Estes bebês,   crianças que mais tarde se tornarão adultos e muitos precisam de alguém que lute por eles da mesma forma que se luta tão ferozmente por questões que, antes de serem morais, são questões de saúde pública.

Para entender um pouco sobre o que eu estou falando, basta assistir este vídeo da campanha “Criminalizar o aborto resolve? Vai pensando aí”. No vídeo é feita a pergunta: você é contra ou a favor do aborto? Todos se dizem contra. O vídeo continua: você conhece alguém que já fez um aborto? Todos respondem que sim. “Essa pessoa deveria ser presa?”. Hesitação. Silêncio. Ou seja, automaticamente todos condenam o aborto mesmo conhecendo alguém que já fez. Mas quem deve ser criminalizada são “as outras”. O que demonstra, no mínimo, uma certa má vontade de refletir sobre o que se condena e o que se defende.

No protesto de Elisa, ela não recorreu a nenhuma provocação do tipo “meu corpo, minha escolha”. Não levou megafones e proferiu frases de efeito. Apenas demonstrou respeito à memória das mulheres que morreram por falta de atendimento adequado. E isso escancarou a hipocrisia de quem se diz “pró-vida”. Que Elisa saiba que não tem apenas o apoio de nós, feministas e simpatizantes,  mas de todos aqueles que também estão cansados dos discursos hipócritas.

Clique na imagem para assistir ao vídeo do protesto:

Leia também:

Elisa Gargiulo: “Não existe espaço seguro”(aqui)

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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