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Entrevista: Cícero Lins (Para revista O Grito!)

Entrevista: Cícero

7 de fevereiro de 2012, 06h30
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cicero

ESTAR SOZINHO
Cantor  ganha des­ta­que na cena inde­pen­dente e elo­gios da crí­tica com seu tra­ba­lho alta­mente intimista

Por Renata Arruda

Há três anos, o cari­oca Cícero Lins, 25, saiu do lon­gín­quo bairro de Santa Cruz, no subúr­bio do Rio, onde morava com seus pais e se ins­ta­lou em um pequeno apar­ta­mento de 25m2 em Botafogo, a três horas de casa. Durante este tempo, Cícero se for­mou em direito, fri­tou ham­búr­guer nos Estados Unidos, pro­du­ziu fes­tas lota­das onde toca de música bra­si­leira a rock indie e viu des­feita sua antiga banda de ado­les­cên­cia, Alice, bem quando havia com­prado os equi­pa­men­tos neces­sá­rios para mon­tar um home stu­dio onde gra­va­riam seu ter­ceiro CD.

De todas essas expe­ri­ên­cias e da sen­sa­ção de sentir-se sozi­nho em um uni­verso repleto de gente, nas­ceu seu pri­meiro álbum solo, Canções de Apartamento (2011, Independente), escrito e gra­vado arte­sa­nal­mente no mesmo apar­ta­mento de 25m2 onde o com­po­si­tor vivia até um mês atrás. Disponibilizado de graça há menos de oito meses na inter­net, sem o apoio de gra­va­dora, asses­so­ria de imprensa ou pro­du­tora, Cícero con­tou com a ajuda de ami­gos, blogs e sites inde­pen­den­tes para a divul­ga­ção e logo o disco se tor­nou um sucesso atra­vés da rede, con­quis­tou posi­ções pri­vi­le­gi­a­das em diver­sas lis­tas de melho­res de 2011 (umas o con­si­de­ram o álbum mais impor­tante do ano pas­sado e outras che­gam a equi­pa­rar ao Transa (1972,Polygram) de Caetano Veloso) e Cícero se trans­for­mou em uma espé­cie de fenô­meno, com shows lota­dos em todos os luga­res por onde pas­sou e a repen­tina alcu­nha de ídolo de ado­les­cen­tes ao mesmo tempo em que agrada à crí­tica especializada.

Tendo como refe­rên­cias músi­cas de Tom Jobim, Radiohead e Caetano (que mui­tas vezes fun­ci­o­nam como cita­ções) Cícero compôs um álbum sen­sí­vel que, de tão pes­soal, torna-se uni­ver­sal ao pro­cu­rar lidar com temas tão ínti­mos de todos nós: a soli­dão, a ilu­são dos finais de semana, o estresse das gran­des cida­des, os não-relacionamentos e o fra­casso amo­roso; capa­zes de dar nós na gar­ganta em músi­cas como “Eu Não Tenho Um Barco, Disse a Árvore”, cujo título faz refe­rên­cia direta ao conto de Shel Silvertein (A Árvore Generosa, Cia. Das Letras) — onde uma árvore apaixona-se por um menino a tal ponto de permitir-se tor­nar um toco pela feli­ci­dade dele — ou ofe­re­cer uma alter­na­tiva de refú­gio à cor­re­ria moderna, quando o can­tor con­vida para “ver um filme, ter dois filhos, ir ao par­que dis­cu­tir Caetano, pla­ne­jar boba­gens e mor­rer de rir” (“Vagalumes Cegos”), iro­ni­ca­mente, tudo que sua recente rotina não tem per­mi­tido: “meus pla­nos andam sendo colo­car uma pra­te­leira lá em casa!”, conta na entre­vista que con­ce­deu em meio a turnê:

Quando sur­giu o seu envol­vi­mento com música?
Me envolvo com música desde que me entendo por gente. Lembro que com uns 10 anos rou­bei um gra­va­dor do meu pai e can­tei e gra­vei uma música, só can­tando. Desde sem­pre vi que música era meu lance. Nunca senti por nada o que sinto pela música e isso vem desde sem­pre. A com­po­si­ção veio um pouco depois, com uns 15 anos, quando come­cei a arra­nhar o vio­lão. Mas com os três pri­mei­ros acor­des que aprendi a dar, já fiz minha pri­meira música.

Existe uma his­tó­ria que você viu alguns músi­cos em Nova Iorque tocando na rua e, de certa forma, aquilo te ins­pi­rou. Pode falar sobre isso?
Sobre NY, o que me ins­pi­rou foi ver os músi­cos inde­pen­den­tes, sejam os de rua ou de bares, vivendo daquilo, acre­di­tando e fazendo aquilo com orgu­lho. Nas ruas, pra­ças, metrô, bote­cos. Aquilo mexeu comigo. Me esti­mu­lou a pular de cabeça também.

Eu vejo o “Canções” como um álbum que fala sobre se sen­tir soli­tá­rio em um uni­verso de muita pressa, estresse, mui­tos con­ta­tos e pou­cos rela­ci­o­na­men­tos de ver­dade. Em entre­vista, você disse que as pes­soas pro­cu­ram a solu­ção do vazio exis­ten­cial em dro­gas, deus, yoga, mas a solu­ção não está nisso. E você, qual a sua vál­vula de escape? Esta ques­tão da soli­dão já está resol­vida pra você?
Minha vál­vula de escape pra tudo é a arte. Música e lite­ra­tura prin­ci­pal­mente. É o que me man­tém são, ope­rando. A ques­tão da soli­dão é mais uma das mui­tas que temos hoje em dia, e tal­vez sem­pre tive­mos e sem­pre tere­mos. Acho que essas coi­sas a gente não resolve, a gente entende. Mesmo assim, um pouco, o que dá.

Teme que a fama te faça sen­tir iso­lado?
Não acho que a fama vá pio­rar ou melho­rar isso. Acho que isso vem de den­tro mais do que de fora.

Shows lota­dos, pes­soas cho­rando, fãs leais, alguns bei­rando a his­te­ria. Como você tem rece­bido a reper­cus­são do “Canções”? Dá pra enlou­que­cer?
Pra mim é tudo cari­nho. São níveis de cari­nho. Cada um lida com esse sen­ti­mento de uma forma. Tudo pode te enlou­que­cer se você dei­xar. O lance é enten­der que somos todos pes­soas iguais, capa­zes de sentir.

E a expe­ri­ên­cia de ir pra estrada?
Cansa. Não vou negar. Mas eu quero ir onde que­rem me ouvir. É minha forma de retri­buir esse cari­nho todo. Eu quero e vou aonde der.

Ao mesmo tempo em que agrada um público adulto, se vê mui­tos ado­les­cen­tes nos seus shows e nas suas pági­nas em uma mis­tura de públi­cos que nem sem­pre é comum. Quando as músi­cas fica­ram pron­tas, você achava que elas atin­gi­riam um público espe­cí­fico? Esperava por isso?
Não fazia ideia de nada. Mesmo. Não espe­rava nada, só que­ria que ouvis­sem e gos­tas­sem. Não ima­gi­nei que tudo ia acon­te­cer tão rápido como tá acon­te­cendo. Mas acho lindo que as músi­cas tenham se mos­trado livres!

Eu tenho visto mais elo­gios que crí­ti­cas ao seu tra­ba­lho. Como você lida com isso; tem receio de uma crí­tica mais inci­siva? Gosta de acom­pa­nhar o que sai sobre você?
No começo eu con­se­guia acom­pa­nhar tudo, depois ficou impos­sí­vel. É muita, muita coisa mesmo. Não con­se­gui acom­pa­nhar. Quase tudo que eu li até agora foi elo­gi­oso, res­pei­toso. Acho que até quem não gos­tou do disco res­pei­tou que foi algo feito de cora­ção aberto. Gostar ou não é muito indi­vi­dual, nada nunca vai ser unâ­nime, mas o Canções foi rece­bido com muito cari­nho por todo mundo. Medo de crí­ti­cas eu tenho. Me expus demais no disco, tudo que fala­rem dele, estão falando de mim. Então eu tenho medo sim!

Como tem sido man­ter a car­reira com­ple­ta­mente inde­pen­dente de gra­va­dora, pro­du­tora, asses­so­ria? Está em seus pla­nos per­ma­ne­cer assim?
Pesado. Não tenho como con­ti­nuar total­mente inde­pen­dente mais. É muita coisa pra resol­ver o tempo todo. Vários assun­tos ao mesmo tempo, vários deles eu não sei admi­nis­trar. Vou aca­bar virando um empre­sá­rio de mim mesmo e vou me dis­tan­ciar de com­por, escre­ver, viver. Além de ficar com­ple­ta­mente sur­tado. Vou pre­ci­sar de par­cei­ros pra me aju­dar a tocar o barco. Mas não abro mão do ide­a­lismo, não importa o que acon­teça, vai ser den­tro dos valo­res que me trou­xe­ram até aqui.

Você decla­rou que não cos­tuma “viver no futuro”, e que sem­pre pode fazer outra coisa como “ven­der san­duí­che na praia”. Mas não assus­tam decla­ra­ções como a do Wado, que recen­te­mente disse estar pen­sando em pres­tar con­curso público por­que tinha uma famí­lia e não estava con­se­guindo sustentá-la com a música?
Sustentar uma famí­lia é uma res­pon­sa­bi­li­dade enorme. Não é só você com você mesmo. Não faço ideia do que pode pas­sar pela cabeça de alguém que pre­cisa cui­dar da vida de outra pes­soa. É outra his­tó­ria. Eu não sei o que é isso, não posso nem opi­nar. Mas eu comigo mesmo tenho um trato: Enquanto for­mos só nós dois, vai ser assim.

 

Ainda sobre ser um artista inde­pen­dente, você disse que o Rio não tem a mesma cul­tura de SP de ir a shows de artis­tas novos no meio da semana. Já Romulo Fróes recla­mou que falta “apoio” entre os pró­prios artis­tas, que não vão muito aos shows uns dos outros. Como você vê tudo isso?
Não sei. Paguei minha lín­gua. Fiz três shows segui­dos no Rio, os três em inter­va­los de pou­cos dias, os três em dias de semana, os três cheios. Talvez os tem­pos este­jam mudando. Você não pode cul­par o “público” por não haver “público”. Se as pes­soas se sen­tem cati­va­das a sair de casa, elas saem. Se não sen­tem, não saem. Acho que falta um pouco de cari­nho no “lidar” com essas coisas.

Você se sente parte desta nova gera­ção da MPB?
Não sei do que faço parte! Mas até pouco tempo atrás não ouvia muita coisa da dita Nova MPB não, assumo. Comecei a ouvir quando come­ça­ram a me rela­ci­o­nar com esse estilo, daí fui me intei­rar. Mas conheço pouco ainda.

Você decla­rou que­rer aju­dar a movi­men­tar uma cena under­ground no Rio. Como você ava­lia o cená­rio artís­tico cari­oca em geral?
Tem uma galera nova com muita von­tade e talento. O Rio tem um jeito de sen­tir, logo de fazer música, bem par­ti­cu­lar. Tem arte em tudo que é canto na cidade, a coisa só não é bem orga­ni­zada. Mas não só artis­ti­ca­mente falando.

Ainda nessa ques­tão, um grande pro­blema do Rio é que tudo fica muito con­cen­trada no Centro/Zona Sul, e quem mora em bair­ros mais afas­ta­dos pre­cisa cru­zar a cidade pra ir a um show, assis­tir um filme fora do cir­cuito, e etc. Acha que seria pos­sí­vel movi­men­tar essa cena pra cá? Já pen­sou em tra­zer o show do “Canções” para as lonas cul­tu­rais?
Eu sou de bem longe da Zona Sul. Sou de Santa Cruz, o último Bairro da Avenida Brasil. Nasci, cresci e vivi nele até os 22 anos. Até hoje não tem cinema, tea­tro ou livra­ria no bairro. Tive que me des­lo­car 3 horas pra longe da minha famí­lia pra poder fazer e mos­trar minha música. Isso é um pro­blema. Mas é um pro­blema de Estado, é um pro­blema polí­tico. Acredito na arte como uma célula livre que se espa­lha e muda de uma forma muito pro­funda as pes­soas. Assim as pes­soas mudam seus meios. E seus meios mudam o todo. Assim fun­ci­o­nou comigo, só posso acre­di­tar naquilo que acon­te­ceu comigo.

E quais os seus pla­nos para este ano? Planeja lan­çar outra música? Com toda a cor­re­ria, será que con­se­gue uma pausa para colo­car em prá­tica o pro­jeto do livro?
Meus pla­nos andam sendo colo­car uma pra­te­leira lá em casa! Tô morando no aero­porto, sem tempo pra nada. Uma cor­re­ria absurda. Mas livro, clipe, música nova, tudo isso são pla­nos pra esse ano sim! Vou fazendo con­forme for tendo tempo, prometo!

* Renata Arruda é jor­na­lista. Colabora na Revista Cultural Novitas, no Scream & Yell e assina o blog Escrevedora.

Capa do site

Link: http://www.revistaogrito.com/page/blog/2012/02/07/entrevista-cicero/

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Redatora e tradutora.

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