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Cultura e Entretenimento, Opinião, Todos

Livro: A Visita Cruel do Tempo

“E o zumbido,
sempre aquele mesmo zumbido, que talvez, no final das contas,
não fosse um eco, mas sim o barulho do tempo que passa.”

Acabo de me sentar para escrever algumas linhas sobre “A Visita Cruel do Tempo” e, no instante em que me perdi em pensamentos buscando inspiração para começar, soa o bip repetido de um velho relógio digital esquecido dentro do armário informando que é meia-noite. Ele, o tempo. Enchendo o ambiente com sua presença real e sonora. Nenhuma coincidência maior que começar a escrever sobre um livro que fala do tempo com o som de um relógio.

No título, Jennifer Egan já entrega: o tempo é cruel. E ele chega para todos. Em um dia, você pode ser um grande músico; no outro, viver na pobreza pescando em um rio imundo. Pode ser uma adolescente rebelde e problemática, que se transforma em uma grande mãe. Ou um profissional prestigiado com horror a envelhecer, que no seu leito de morte tem apenas a cia. da sua mansão vazia. Mas esta é apenas uma das nuances do meticuloso trabalho de Egan de abordar a passagem do tempo na vida de vários personagens que estão, de alguma maneira, interligados, criando uma enorme e emaranhada rede de histórias que ao falar de um, estão também contando sobre o outro. Sem uma ordem cronológica, Egan consegue, em 13 capítulos independentes, apresentar várias maneiras de contar uma história: algumas parecem o tempo presente, outras estão no passado e ainda há espaço para o futuro. Narrações em primeira, terceira e até mesmo segunda pessoa; sobrando espaço ainda para um capítulo feito em slides e outro, uma espécie de matéria jornalística. Um risco enorme de não funcionar nas mãos de alguém menos talentoso e mais pretensioso; porém, Egan consegue fazer tudo parecer muito natural, de forma que aceitamos as múltiplas narrativas do livro como se estivéssemos testemunhando a vida ou conversando com  “pessoas” de personalidades tão diferentes.

Usando como pano de fundo a indústria cultural, seus assessores, suas estratégias de marketing; a efervescência e a liberdade musical/comportamental/sexual dos anos 60/70,  o dinheiro e o declínio do seu antigo modelo; o jornalismo de celebridades e a efemeridade de suas estrelas e previsões quase apocalípticas para o avanço da tecnologia e sua influência na linguagem e no comportamento (passando a voltar seus produtos para os bebês!); o elemento constante é a música – que chega a se tornar representativo na obsessão que um menino de 13 anos tem pelas pausas – e Egan soube dividir os capítulos de maneira com que o livro simulasse um antigo vinil: um lado A, composto de seis capítulos e um lado B, com sete, cujo final que resgata o início funciona como o encerramento de um ciclo e fecha todo o conceito do “álbum”.

E nesse ritmo, de tantos acasos e imprevistos, somos levados a pensar em nossas próprias vidas, olhar para o que éramos e o que somos e muitas vezes constatar que nada saiu como previmos. Confesso que pensar no que ainda está por vir me causa um leve arrepio.

“O tempo é cruel, não é? 
Não é assim que se diz?”

A Visita Cruel do Tempo
Autora: Jennifer Egan

Ano: 2012

Editora: Intrínseca
Leia o primeiro capítulo (aqui).

 

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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