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O filme mudo e a comédia sobre câncer

O Artista 

Vencedor de vários prêmios e um dos favoritos ao Oscar deste ano, O Artista é um filme que encanta pelos mais diversos motivos. O primeiro é também o mais óbvio: trata-se de uma comédia romântica (mais divertida que romântica) leve, cheia de fórmulas, com personagens cativantes muito bem interpretados por atores belos e charmosos. A sinopse é simples: um astro do cinema mudo (Jean Dujardin) entra em decadência com a chegada do cinema falado e, ironicamente, a atriz (Berenice Bejo) para quem indiretamente ele ajudou a “abrir caminho” (como dito em certa cena) se torna a grande estrela desta revolução.

Mas nada disso importa. A grande beleza do filme reside em ser uma verdadeira homenagem à sétima arte. Logo na abertura, a perspectiva da câmera nos coloca a vivenciar a experiência de assistir um filme mudo no final da década de 20, exibido em um grande teatro com orquestra. A cena que vemos é uma pequena “piada”: o protagonista está preso e amordaçado, recusando-se a falar.

No decorrer do longa, vemos homenagens ao cinema da época em seus vários gêneros, citados de acordo com  que o personagem de Dujardin vive seu drama;  personagens característicos (o galã carismático, a esposa infeliz, o fiel criado, o cachorro amigo) e Michel Hazanavicius mostra-se genial ao optar por sutilezas ao narrar a transição que mudaria definitivamente a história do cinema: em determinada cena, quando o cinema falado é, digamos “apresentado” e “ridicularizado”, a cena a seguir mostra todos os ricos detalhes sonoros que muitas vezes nos passam despercebidos: um copo, uma risada, um latido e, até mesmo, uma pena caindo. Em outra sutileza, esta de estilo, temos a bela e triste cena que mostra uma enorme escadaria e exatamente no meio se encontram o astro em decadência e a atriz em ascensão, em uma cena que fala por si só.

Com um final esperado mas não menos inusitado (em mais uma homenagem ao cinema da época), o filme não apela para o romantismo barato, mas por -outra sutileza- uma mostra da emancipação feminina onde a heroína é quem, literalmente, salva o mocinho. O desfecho é um deleite à parte e só reforça a inteligência de Hazanavicius como diretor, que não irá surpreender se levar a estatueta pra casa.

50% 

50-50 - foto 1

50% (50/50) é uma comédia dramática dirigida por Jonathan Levine e protagonizada por Joseph Gordon-Levitt (Adam) que aborda um tema sério e delicado: câncer. O argumento é baseado na história do roteirista Will Reiser, que lutou contra um tumor maligno aos 24 anos e sobre como ele e principalmente seus amigos – incluindo Seth Rogen que atua no filme como melhor amigo de  Adam – estavam despreparados para lidar com o assunto e não se deixaram abater pela condição de Reiser. Mesmo se tratando de uma comédia, gênero incomum para o tema, nada ali parece fora de lugar. Não há humor negro, grotesco ou insultoso: apenas um rapaz que não sabe direito como reagir a uma notícia tão grave e continua tentando levar sua vida normalmente, mesmo ainda após situações em que fica cada vez mais solitário. Tampouco o personagem de Joseph Gordon-Levitt é construído de maneira fria ou apática, e a medida em que vai frequentando a terapia, percebemos que se ele não se desespera ou se deprime é tão somente por estar tão determinado a não sentir pena de si mesmo que sua superficial naturalidade não passa de um mecanismo de negação da raiva.

A cena-chave do filme, que inclusive estampa o cartaz e é o motivo que me inspirou a escrever este texto, é aquela em que Adam raspa o cabelo. Quantas vezes não vimos cenas parecidas, com grande carga dramática? Porém aqui o que vemos são dois amigos agindo naturalmente, como se se tratasse apenas de um novo corte de cabelo. A cena é hilária, com talvez uma ou outra piada fácil, mas convincente e, não fosse a condição de Adam, podemos imaginar qualquer um em situação parecida.

Ao assisti-la, automaticamente me lembrei de Carolina Dieckmann na novela Laços de Família e todo o drama carregado em sua cena. Ali está escancarada a mensagem que 50% tenta passar: em uma situação difícil, rir faz parte da cura.

Os momentos tristes e tocantes também estão presentes no longa e Reiser teve o cuidado de não apelar para as cenas de choro fácil, que forçam o espectador a se emocionar com o drama mostrado na tela. O maior deslize cometido em 50% é o desfecho em um romance forçadamente previsível e pouco provável, talvez com a intenção de “gratificar” o protagonista após tantos acontecimentos desgastantes que fazem com que nós, os espectadores, sejamos aqueles que mais sentimos pena de Adam. Mas não precisa ser assim.

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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