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Rio Comicon: Um evento cultural (Publicado no Teia Livre)


Minha relação com os quadrinhos começou tarde e ainda é capenga, eu admito. Em criança, lia os gibis da Turma da Mônica e Luluzinha, mas logo abandonei pelos livros quando me tornei adolescente. No máximo, achava divertidas as tiras de Mafalda e Calvin. Foi apenas quando adulta que me emprestaram o livro que mudou o que eu não sabia sobre quadrinhos até então: Maus, de Art Spiegelman, que conta de maneira crua o período em que o pai do autor passou em Auschwitz.A graphic novel, toda em preto-e-branco, me mostrou um universo que eu desconhecia: a produção de quadrinhos para adultos que não se baseava no humor fácil do grotesco e nem se resumia às charges de jornal. Logo em seguida descobri as tiras “Malvados”, do André Dahmer, conheci o tão-adorado Laerte, ganhei “Persépolis”, de Marjane Satrapi, de presente e ainda a brilhante adaptação de “A Metamorfose”, de Kafka, realizada por Peter Kuper. Já estava claro que, mais do que divertir e entreter, os quadrinhos também tinham um valor cultural que eu não havia tentado perceber e o quão importante é o trabalho dos artistas que possuem a habilidade de discutir a sociedade e as relações humanas com poucas frases e muitos traços.

 

Quando se chega a Rio Comicon, a primeira impressão é a de se tratar de um evento nerd. A primeira vez que eu – que gosto de quadrinhos – entrei, me senti deslocada. Estandes com brinquedos super-heróis, camisetas com motivos de videogames, um Play Station entre eles, para alegria de um garotinho. Foram as primeiras coisas que eu vi e, mesmo ciente da programação, não deixei de imaginar que acabaria sendo um evento focado em games, super-heróis e personagens de Star Wars. Ledo engano. Após poucos passos já havia percebido que meu preconceito não se sustentava: mais do que um evento “nerd”, eu estava em um evento cultural. Talvez por ter chegado cedo e em plena Quinta-feira, encontrei um espaço quase vazio, não vi os famosos cosplayers nem a molecada, o que me surpreendeu pois é o que se espera em um evento de HQs (soube que estiveram por lá no Domingo lotando a feira). Faltou um pouco de organização, mas isto não tirou a beleza e a diversão da coisa. Da sensualidade da forte Valentina de Guido Crepax a uma ala toda caprichosamente dedicada à Spirit, de Will Eisner; passando por uma tímida exposição em homenagem às mangakás do estúdio CLAMP e outra aos 75 anos da DC Comics, era também possível ver mostras dos trabalhos de todos os convidados da convenção e ainda havia espaço para os quadrinhos (in)dependentes, o que ressaltou toda a diversidade presente na considerada nona arte. Diversidade esta também no fato da feira ter várias mulheres em destaque como a supracitada homenagem às quatro “rainhas do mangá”, CLAMP; Catarina Crepax, estilista filha de Guido Crepax, que apresentou suas alta costura feita em papel e as artistas Ulli Lust,Junko Mizuno, e Erica Awano, que estiveram presentes no evento. O site Os Brucutus, chamou a atenção para a valorização das mulheres no “espaço no machista mercado dos quadrinhos” e isto me lembrou que no ano passado, no lançamento de “Mundinho Animal” (Barba Negra), Arnaldo Branco fez a seguinte dedicatória: “primeiro livro que autografo para uma mina”. Aos poucos, a coisa parece que está mesmo mudando.

Uma das fotos vencedoras da Promo Clique #RioComicon2011/ Renata Arruda

Voltando ao evento, só tive tempo de assistir ao primeiro debate: Quadrinhos e cultura pop, com Heitor Yida, Marcelo D´Salete, Mateus Acioli e Rafael Moralez e mediado por Marcelo Yuka. Ali o público levantou questões como se a Maurício Produções, de Maurício de Sousa, era um problema por seu suposto caráter comercial e se faltava um herói para que se popularizasse as HQs brasileiras.

Para a mesa, a Turma da Mônica não compete e nem atrapalha o trabalho de outros autores, alguns mais focados no público adulto e nenhum deles sente necessidade de criar nenhum tipo de herói midiático, acreditando que existe público para todo mundo e isso é o que importa.

E um público cada vez maior, já que além das editoras norte-americanas que continuam contratando artistas brasileiros como Rafael Albuquerque (Mondo Urbano), exclusivo da DC Comics onde ilustra “American Vampire”, e Danilo Beyruth (Bando de Dois), cada dia mais editoras brasileiras como Devir, Desiderata, Quadrinhos na Cia. (Cia. Das Letras), entre outras, estão interessadas em publicar os autores nacionais.

Ainda que se viva um grande momento para os quadrinhos nacionais, os livros em geral são caros, pouco badalados fora dos cadernos e sites especializados (talvez a exceção seja “Cachalote”, de Rafael Coutinho e Daniel Galera) e existe uma acomodação do mercado que ainda não estabeleceu o modelo de distribuição (alguns focados em periódicos, outros focados nos livros). Outra questão que também se levanta é a falta de uma categoria adequada para os quadrinhos em premiações como o Jabuti, que neste ano incluiu a modalidade “Ilustração” onde concorreram o livro de tirinhas “Vó” (Jean; Editora Leya) e as graphic novels “Memória de Elefante” (Caeto; Cia. Das Letras) e “Cachalote” (Cia das Letras), sendo este o ganhador do prêmio. O que incomodou foi o foco da premiação apenas nas ilustrações, esquecendo que os quadrinhos estão inseridos em um universo maior do que este, onde tiras e pequenas histórias diferem de graphic novels – que muitas vezes contam com o trabalho de roteiristas, além dos ilustradores.

No final das contas, o importante é que as coisas estão mudando, e eventos como a Rio Comicon são importantes para mostrar ao público leigo, como eu, que nem coisa de nerd e muito menos de criança: quadrinhos são para todos os que gostam de cultura.

 

Mais fotos: http://www.flickr.com/photos/52668546@N08/    

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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