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Comportamento, Opinião, Todos

Crônica – Só as mães são felizes (Publicada na Revista Cultural Novitas #12)

E de repente, um pedacinho de você muda completamente a sua vida. Tarefa difícil essa de ser mãe, viu?
Começa quando os hormônios enlouquecem, você fica irritada, sensível, chora, se cansa, sente “um sono”, “uma fome”, vontade de comer coxinha de galinha às 7 da manhã, desmaia em plena Praça XV.

E faz dietas, e faz exames, e faz excercícios. E lê e pesquisa e questiona. E procura médicos, procura hospitais, procura profissionais mais alinhados com o que você acredita. E escolhe métodos, conceitos, partos. Corre atrás de enxoval, reforma o quarto, compra bichinhos de pelúcia e roupas vários números maiores que o normal.
No grande dia, tudo novo. Ansiedade, dores fortes, massagens, água, senta em bola suiça, caminha, acocora, chora, aperta. Banheira, água quente, FAZ FORÇA! Nasceu!

De repente, acaba a dor, e uma criança estranha aparece no seu colo. Suja de sangue, de gosminha branca, um bebê pequenino, choroso, assustado. As pessoas riem, choram: é uma festa. Você sente alívio, sente sabe-deus-o-quê! Tem que aprender a dar banho, trocar fraldas. Se acostumar com um bebê sugando seu seio.

Acordar a noite, dar colo, fazer dormir, cantar canções de ninar. Levar para a vacina, para o pediatra, aprender a fazer papinha, comprar mais roupas – porque as antigas não dão mais, mais pomada, mais fralda. O que será q ela tem? Por que não para de chorar? Perdeu o choro, e agora? Passar noites em claro, ler as revista, pesquisar na internet, se desesperar, dar remédio pra febre, acordar cedo para o banho de sol.

De uma hora pra outra, está sentando. Depois engatinhando. Depois andando e desarrumando as gavetas, caindo da cama, mexendo em tudo o que vê, colocando na boca peças miúdas que você jamais se deu conta que existam, e se engasgando.

E agora já está andando, correndo, subindo as escadas, as janelas, pulando. Falando “mama”…”papa”…”qué”….”não”. Não, não não. Não quero tomar banho! Não quero comer! Não quero dormir! Não quero ir no colo dele! Não..

E vamos aprender a ir no penico. Vamos parar de mamar. Vamos aprender a passear na rua andando e não no colo. E entra na escola, mochila, lanchinho, uniforme, festinha, trabalhinho, mensalidade. Plano de saúde, uma cômoda maior. Sai do cadeirão pra mesa, aprende a comer sozinho (e sujar a casa de comida).
Pega suas roupas, seus sapatos, sua maquiagem, rasga as revistas, destrói os porta-retratos, abre a geladeira, espalha os cds, desliga a TV, mexe na louça.
2 aninhos e já sabe usar o computador!

Não te deixa sair, chora, pede pra ir junto, pede pra vc não ir. “Não vai trabalhar”, “não vai pra faculdade”, “fique aqui comigo”, “brinque comigo”, “dorme comigo”, “me dá banho”, “me dá papa”.

E a medida que vai crescendo a gente vai percebendo cada mudança de feição, o cabelo maior, o sorriso aos poucos se enchendo de dentes, o corpinho se desenvolvendo. A gente vê gerações da nossa família, da dele, as misturas, a nossa infância. E pensa como é incrível uma vida sair de dentro de você e se desenvolver a cada dia, tão rápido quanto a velocidade da luz. Quando você vê, já passou e tudo o que você tem são lembranças de um tempo em que você não via a hora do trabalho árduo acabar. E se dá conta de que isso é ilusão. Apenas muda o tipo de trabalho, de preocupação, de responsabilidades. E a cada período difícil, também é mais gostoso o desenvolvimento, as pequenas conquistas, o serzinho aprendendo a viver e “se virar” sozinho, as alegrias que não acabam mais. Aprende a ler, a se vestir, a tomar banho. Começa a brincar com os amiguinhos e não quer você por perto. Começa a ter seus pequenos segredos, suas pequenas fantasias e a perguntar o porquê de tudo. Quer fazer tudo sozinho. E você começa a sentir saudade do tempo em que você era quem fazia tudo para eles, enquanto o cordão umbilical vai sendo lentamente cortado. E os castigos, as malcriações, as mentirinhas e a noção de que muito do que faz não é reconhecido. Mas você tolera, porque você ama e porque, na verdade, aquele ali é um reflexo de você: do que você foi, do que você é.

Mesmo que às vezes ausentes, às vezes frustradas, às vezes cansadas, só mesmo as mães são felizes.

Renata Arruda

Esta crônica pode ser acessada aqui ou aqui.

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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