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Música, Resenhas, Todos

MoMo – Serenade of a Sailor (Publicado no Scream & Yell)

Por Renata Arruda, com colaboração de Ricardo Gameiro*

Capa por Beto Martins/ Imagem: "O desprezo e a amnésia dolosa" de Danielle Carcav

Momo – alcunha do músico mineiro-carioca ex-Fino Coletivo, Marcelo Frota – lança o terceiro ato de sua discografia após o aclamado CD de estreia A Estética do Rabisco (2006) – que entrou para a lista de melhores do ano do crítico americano Peter Margasak, do Chicago Reader e foi indicado como revelação pela revista francesa Muziq – e Buscador (2008), que lançado de forma independente, abocanhou boas críticas na grande mídia brasileira e rendeu uma indicação ao Prêmio Quem de melhor cantor. No álbum lançado este mês, Serenade of Sailor, Momo parece navegar em direção a outros mares, distanciando-se levemente da proposta dos trabalhos anteriores, fortemente influenciados pela geração setentista oriunda de Minas Gerais, apontando sua proa para o folk melancólico Nick Drake e o lirismo Leonard Cohen, além de Gonzaguinha e Fagner.

Em Serenade of a Sailor, Momo incorpora o marujo solitário cujas únicas companhias são a imensidão do mar e o seu violão. E se antes Momo não considerava sua música “essencialmente folk”, agora assume-se como músico de um certo folk psicodélico “Porque o violão está muito presente, e também porque o compositor folk é o que está cantando ali, na reta, sem rodeios”. Para a divulgação do disco, investiu no interessante projeto de vídeos com trechos de suas canções, tocando apenas em voz e violão, sendo a bela “My Sea” – que conta com uma guitarra slide que remete aos arranjos de Buscador uma das primeiras a serem divulgadas e também a única que encontra-se disponível para download em sua página no site ReverbNation, onde pode-se ouvir em streaming todo o álbum, que contou com a parceria do compositor Ronaldo Bastos, a participação dos músicos Lucas Santanna, Régis Damasceno, Domenico Lancellotti, Jam da Silva, Max Sette, e a co-produção de Caetano Malta, ao lado de Marcelo.

O músico, que traz em sua bagagem influências de sua vivência em Angola, Estados Unidos e Espanha, pela primeira vez nos apresenta composições em inglês, mas garante que não é uma tentativa de penetrar no mercado americano, onde realizou uma turnê de 40 dias, percorrendo 12 estados americanos em 2009.Às vezes, a melodia pedia versos em inglês. Uma letra em português não se encaixava em ‘Blue bird’, assim como seria difícil pensar algo em inglês para ‘O morro’”, declarou em entrevista ao Globo.

O disco abre com “Tenho que Seguir”, uma canção positiva composta por um doce arranjo de xilofone e que funciona de maneira a ambientar o ouvinte para as canções que virão ao longo do álbum. Em seguida “Blue Bird”, uma das mais belas canções do disco, possuindo uma guitarra com um quê de “flamenco” na introdução e que não surpreenderia se se tornasse o “hit” do CD.

Avançando um pouquinho, nos deparamos com “Pescador”, onde versos como “É que às vezes eu me sinto assim tão só/Pescador em alto mar/Minha casa não é minha/E o meu amor não se cansa de esperar” sintetizam a rotina angustiante de um verdadeiro pescador. Em seguida, “Wake me Up” – faixa em que na letra Momo se oferece para aliviar a dor alheia “Don’t be scared of darkness in your eyes/Hold me tight and I’ll shelter you my joy”. Uma música conduzida por violão dedilhado, que começa silenciosa até clímax com coro, órgão e uma guitarra fuzz. Clímax este que chega a transmitir um quê de esperança no ouvinte. Mas ao final da audição, somos tomados pela instrumental “Solitute”, um dos destaques do disco pelo seu clima de profundo lamento, e talvez este seja o momento mais sombrio do álbum. A canção nos convida à introspecção, sentimento que é reforçado pela suave flauta, que remete às velhas canções de povos primitivos muito ligados às questões do espírito. “Solitude” funciona desta maneira: como uma canção para o espírito e parece querer nos dizer “devemos olhar um pouco mais para dentro.”

Outro destaque, é a curiosa “Madeleine, música em clima de Bossa Nova, com Momo encarnando um crooner a la Sinatra. A canção segue numa ponte para a psicodelia, que permeia toda a obra de Momo, com acordeão e guitarra slide com bastante ambiência.

Diferente dos anteriores, que foram gravados de maneira mais orgânica, sem edição de instrumentos, afinação de vozes e uso de instrumentos virtuais, desta vez é perceptível que houve maior elaboração na gravação e produção do som. Também nota-se que as guitarras, que eram mais ruidosas e lisérgicas anteriormente, agora estão mais orgânicas e, de certa maneira, contribuem para a tradução em sons da solidão ao mar. Outro fato curioso são os trompetes da também instrumental e faixa-título “Serenade of a Sailor”, que remetem às trilhas de western spaghetti. Intencional ou não, mais uma vez Momo usa da sutileza dos sons para nos remeter à solidão.

Outra diferença em relação aos trabalhos anteriores de Momo, é a voz estar bem na frente neste disco. Além de fruto da produção mais caprichosa, parece que a intenção do músico foi dar um foco maior às letras, que às vezes perdiam espaço nos arranjos lisérgicos dos trabalhos anteriores. Em um disco temático e bilíngue, isto é fator essencial para conectar as canções.

O que permanece, quase como uma característica principal do trabalho de Momo, são as letras simples mas que tocam fundo na alma, falando de sentimentos íntimos comuns a todos nós. Mesmo mesclando composições em inglês e português, Momo realizou o cd mais acessível de sua carreira, com melodias e arranjos que transmitem mensagens universais.

*Ricardo Gameiro é músico integrante das bandas Sobre a Máquina e Duques.                                                                                                                                                                                                                                                                    

Momo/Divulgação

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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