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Comportamento, Todos

Matéria sobre mulheres e tatuagem: Não é coisa de mulher? (Publicado no site Universidade Livre Feminista)

Esta é uma das principais formas de autoexpressão. Atualmente, mais do que a música, a variedade de estilos e as razões por trás delas podem dar uma visão geral do que está acontecendo na sociedade.” Kat Von D*

Banner do evento TattooGirls

Até alguns anos atrás, pessoas tatuadas eram marginalizadas pela sociedade. Ainda existem empresas que se recusam a contratar pessoas tatuadas e profissões onde elas estão impedidas de aparecer. Resquícios de uma Idade Média onde a Igreja Católica baniu a prática, considerada demoníaca por “vandalizar o corpo”. Depois, os marinheiros ingleses passaram a difundir a prática pelo mundo, reproduzindo suas aventuras nas figuras de caveiras, monstros marítimos e embarcações. Por uma questão social, a tatuagem acabou se tornando popular entre os guetos, prostíbulos e outros lugares frequentados por bêbados, encrenqueiros, prostitutas e marginais. Em 1879, a Inglaterra passou a adotar a tatuagem como forma de identificação de criminosos. O preconceito ficou mais do que estabelecido, de maneira que não apenas a “escória” fosse vista como adepta do “vandalismo”, mas pessoas tatuadas também passaram a fazer parte das atrações de circo, chamadas de freak shows. 

“A popularidade da tatuagem durante a última parte do décimo nono século e na primeira metade do século XX, deveu-se muito ao circo. Quando o circo prosperou a tatuagem prosperou. Por mais de 70 anos todos os importantes circos empregavam muitas pessoas completamente tatuadas. Alguns foram expostos como atrções incidentais ao lado de outros performances tradicionais, como malabarismos e engolir espadas”

E neste meio, duas mulheres destacaram-se: Jean Furella e Betty Broadbent. Furella, anteriormente Mulher Barbada, resolveu raspar toda a barba e tatuar todo o corpo (para permanecer no circo) após se apaixonar por um homem que não a queria com pelos no rosto. Já Betty Broadbent, se apaixonou pelas tatuagens de Jack Red Cloud e chegou a ter mais de 350 desenhos pelo corpo. Estamos falando aqui de uma mulher que começou a se tatuar nos anos 30! No final dos anos 60, Betty resolveu se tornar tatuadora profissional. Justamente em uma época onde estava aceso o espírito de rebeldia e rock and roll, o que contribuiu bastante para a popularização da arte, principalmente nas décadas seguintes.

Jean Furella, a Mulher Barbada que se tornou Tatuada

Estamos tão acostumados a ver pessoas com tatuagens no corpo, que nunca teríamos imaginado a realidade das pessoas tatuadas no começo da expansão pelo mundo desta, assim chamada hoje, arte.

Não demorou muito para chegar a vez das mulheres, as quais ao mostrar a pele nua e desenhada em uma época na qual era terrivelmente vista a nudez, convertia-se na melhor atração para os homens, os quais deixavam-se levar pelos seus mais baixos instintos com total consentimento da sociedade. Foi essa excitação dos vitorianos que encheu os cofres dos circos, e as mulheres tatuadas converteram-se nas melhor pagas estrelas do espetáculo.

Finalmente, no século XX, as tatuagens passaram a serem normais”, conta o site Arte no Corpo

Talvez a “tara” dos vitorianos seja a explicação do por quê hoje, ao fazer uma rápida busca pela internet, você encontre mais sites ressaltando a sensualidade de uma mulher tatuada do que encontrando informações sobre as profissionais que atuam neste ramo, por exemplo. Tatuagem ainda é vista como uma profissão masculina, embora esta realidade já esteja mudando. Quando eu comecei a tatuar (em 1990), a tatuagem ainda estava saindo da adolescência, era uma arte não tão desenvolvida como hoje.
Não havia informação e haviam poucas mulheres no mercado. O preconceito contra tatuagem ainda era grande, pouquíssimas mulheres tinham tatuagem, era um cenário bem underground. Hoje a tatuagem está bem popularizada, o preconceito contra a tatuagem diminiu ao mesmo passo em que as pessoas se familiarizaram com o processo. E a imagem do profissional mudou também. Hoje tem gente que leva o filho para fazer curso de tattoo porque acha que é uma boa profissão a seguir. A minha mãe achava um absurdo
“, conta a tatuadora Mallu Santos, uma das pioneiras no Estado de São Paulo, que, em 2009 resolveu organizar o evento TattoGirls, sem fins lucrativos, com o objetivo de “mostrar todo o potencial do talento feminino como nas produções de art fusion (quando duas ou mais artistas trabalham numa mesmaobra).”

Sobre a motivação do evento, Mallu desabafa: “Nosso meio ainda é 80% masculino. Ainda temos muita gente que chega no estudio, nos olha e pergunta: o tatuador está? Ou quando sabe que eu sou tatuadora pergunta, seu marido tatua também, não é? Como se eu vivesse na sombra de um marido tatuador. Eu não sou feminista, mas a sociedade é muito machista. Nós precisamos mostrar com naturalidade que existem muitas meninas com trabalhos lindos e tornar a mulher tatuadora uma coisa bem popular”.

E não apenas isso. O evento também contou com a participação da ONG MulherViva “já que muitas tatuadoras sofrem violência. Estamos aqui para dar todo o suporte.”, declarou a coordenadora Naiá Duarte. Sobre a inclusão da ONG, Mallu conta que “no evento eu coloquei uma ong que defende mulheres vítimas de violência, porque elas são vidas solitárias. Eu tive uma grande amiga que morreu assassinada pelo ex-marido e isso marcou demais a minha vida. Se eu puder ajudar a alertar estas mulheres e com isso conseguir salvar ao menos uma, já é uma coisa maravilhosa. Quando uma mulher é vítima de violencia ela também acaba vítima de preconceito. As pessoa já começam a pensar que ela “fez algo para merecer a surra”. A sociedade é muito machista”

Além disso houve também o espaço “Pinup Express”, onde as visitantes receberam produção de cabelo e maquiagem no estilo Pin Up, gratuitamente, além de“palestras e workshops sobre temas importantes como câncer de pele, doenças sexualmente transmissíveis, legislação, abordando as novas normas da Anvisa, além de técnicas de tatuagem e piercing.” Mas o evento não teve nada de segregador: houve participação de homens e inclusive um homenageado.

Mallu declarou em entrevista que nos eventos de tatuagem, dificilmente se vê mulheres expondo e que elas ainda enfrentam muito preconceito:“Se existe preconceito com a tatuagem em geral, imagine com as mulheres: a mulher sempre paga mais caro, algumas clientes se sentem constrangidas ao tatuar com homens… Em coisas assim que temos que pensar. As pessoas agem como se fosse uma ‘coisa do além’ a mulher fazer uma tatuagem bem feita e isso só pode mesmo mudar a partir da desmistificação do nosso trabalho”.

As homenageadas do evento foram as primeiras tatuadoras das regiões mais importantes do Brasil,mulheres que tiveram uma posição de destaque num cenário quase totalmente masculino, há 20, 30 anos atrás”, diz Mallu.Uma delas, Hosani Finotelli chegou a declarar: “Há 30 anos se eu falasse para alguém que um dia teríamos uma convenção só de tatuadoras, os homens ririam da minha cara”. Outra homenageada, Cláudia Macá só conseguiu dizer: “Estou muito emocionada”.

Sobre uma próxima edição do evento, Mallu chegou a afirmar que “a movimentação não vai parar por aqui” e já tem um projeto novo que visa englobar tatuagem e outras artes urbanas, como grafite, música e dança, com o foco sempre nas mulheres. A idéia é que o evento tenha 3 pontos chave: mostra das artes – um primeiro contato com artes urbanas. oficinas de arte – para quem já conhece e quer se aprofundar no assunto e intercambio cultural – para quem já vive de arte e quer estar em contínuo aprimoramento.” Porém, um evento desse porte exige bastante investimento financeiro e Mallu declara estar em busca de patrocínio para uma próxima edição.

E a luta das mulheres para vencerem o preconceito chegou a ser matéria do Correio da Bahia, com repercussão no site Direitos Humanos, do senador Cristovão Buarque. De acordo com o texto, de 2009, a presença de mulheres tatuadoras vem crescendo maciçamente em Salvador e há quem afirme que elas já somam 20%. Mesmo assim, encontramos declarações como as da tatuadora Cell que confirma uma certa má vontade dos rapazes com tatuadoras” e de Tati, que “não viu o preconceito masculino diminuir” e tem 80% da sua clientela um público de mulheres. “Deixam as coisas simples e pequenas para as mulheres e um trampo mais elaborado para os homens”, conta na matéria.

Mas existem também quem afirme que, mesmo com algum preconceito em um primeiro momento, as tatuadoras muitas vezes são preferidas exatamente por serem mulheres e supostamente terem a “mão leve”. Porém, de acordo com Mallu, o problema às vezes está nos colegas de trabalhoAcredito que não exista dificuldade em uma menina com um bom trabalho arrumar vaga na maioria dos estúdios, ao passo que alguns tatuadores se sentem constrangidos em trabalhar para uma mulher”. Constrangimento este que muitos homens, em diversas áreas ainda se permitem sentir.

Para tentar desmistificar também alguns mitos, perguntei a algumas mulheres se elas preferiam fazer tatuagem com outras mulheres. A maioria disse não se importar com o sexo do tatuador, embora algumas admitam que dependendo do local se sentiriam constrangidas. Apenas uma mulher afirmou que se entrasse em um estúdio, iria procurar automaticamente, pelo portfólio de um homem “porque no meu imaginário tem a imagem do tatuador”. O resultado demonstra que embora certos simbolismos ainda sejam fortes na cabeça der algumas pessoas, eles estão se desfazendo para uma maioria.

Para os homens, perguntei se existiria algum inconveniente em ser tatuado por uma mulher, ou se, ao adentrar um estúdio, iriam procurar pelo portfólio de um homem. A grande maioria disse não ver problema algum em mulheres tatuadoras e alguns, inclusive, informaram que já foram tatuados por alguma mulher. Somente três admitiram que ao entrar em um estúdio procurariam pelo portfólio de um homem, ou pensariam que a moça fosse recepcionista do local ou ainda, que talvez ela pudesse ser menos experiente, por ser do sexo feminino. Mas o que todos, homens e mulheres, afirmaram categoricamente é que o importante mesmo é a indicação de algum amigo, o portfólio e as condições de higiene do local.

Para entender de vez a questão, resolvi entrar em contato com algumas tatuadoras e saber as questões da profissão e do preconceito. Reuni nesta entrevista os pontos de vista das cariocas Danielle Perrone , vencedora de cinco prêmios “duas, como melhor tatuadora e outras três nas categorias, Old school, New school e melhor Série de Desenhos Coloridos”. Danielle se especializou em coberturas de cicatrizes e tatuagens mal feitas e, fato curioso, chegou a ter um estúdio, único no Rio de Janeiro, onde só trabalhavam mulheres. Está também Anna Idza, que, como Danielle, se tornou especialista em coberturas “pela demanda” e também abocanhou 5 prêmios “sendo 2 deles como 1º lugar Categoria Colorido, 1 de melhor tatuadora do evento e um como 2º lugar Categoria Colorido e um de 2º lugar Categoria Feminino”. Por fim, mas não menos importante, a tatuadora autônona Elisa Nobre. Todas com observações interessantes sobre o ofício e a arte de se dedicar à tatuagem.

Trajetória

Danielle: Sempre gostei de tatuagem, e desde os treze anos eu já sabia que era isso que eu queria, porém minha mãe tinha medo que eu me tatuasse demais até por conta da minha idade na época, então me proibiu de aprender a tatuar, e como toda mãe, tentou achar uma carreira para mim onde se adequasse ao meu dom para o desenho, e foi por isso que estudei publicidade. Depois disso como eu já era maior de idade eu resolvi que o melhor para mim seria fazer algo que realmente eu amasse. E hoje to aqui. Não participo de todos, nem de muitos eventos, competi em alguns e tive exito na maioria dos que participei, tenho 6 prêmios em categorias variadas e isso já me basta. Não me considero uma “caça prêmios” até por que ao contrario do que a maioria imagina, esses prêmios não trazem status nem retorno financeiro e sim uma falsa fama que se não for renovada, você é rapidamente apagado do meio.

Elisa: Sempre tive aptidão pra desenho, desde pequenas eu e minha irmã desenhamos o tempo todo. Há uns 7 anos atrás eu e um amigo fantasiávamos que abriríamos um estúdio juntos, eu fazendo piercings e ele tatuando. Um tempo depois ele me indicou pra um estúdio onde estavam à procura de uma menina pra ensinar a fazer piercing, assim entrei no mundo da body art, começando, mais ou menos um ano depois, a tatuar.

Ana: Sou tatuadora desde 2005, antes eu cantava e estudava músca, tinha banda, mas a musica atualmente esta vivendo uma fase critica, comecei a tatuar pq a arte sempre foi uma coisa natural pra mim, mas nunca imaginei que iria me apaixonar tanto por meu trabalho assim. Minha maior influencia é o pintor e amigo Celso Mathias do qual pude acrescentar muito ao meu trabalho.

É verdade que as mulheres são as que mais recorrem à remoção de tatuagens? Se sim, por que isso acontece?

Danielle:Acredito que essa minha especialização se deu pelo motivo de eu ter iniciado minhas atividades com tatuadora em um local bem humilde. Na epoca aparecia de tudo. Acho que quanto mais humildes são as pessoas, menos noção de arte elas tem e acabam se marcando, apenas para dizer que possui uma tatuagem. E foi assim que consegui adquirir experiência, aprendendo na prática, tive a oportunidade de fazer coberturas e reformas com até 98% de sucesso, esses 2% de insucesso fica a cargo de verdadeiros estragos na pele, que pessoas despreparadas tem a capacidade de fazer. Mas entre meus clientes o que eu posso dizer é que os que mais recorrem a remoção são os homens, remoção a laser, eles se desesperam mais que elas, passaram por péssimos tatuadores, insatisfeitos fizeram a remoção e depois me procuraram para refazer o trabalho para cobrir a cicatriz que o laser deixa. Já as mulheres recorrem diretamente ao tatuador, fazem mais coberturas, acredito que isso acontece pelo poder economico dos homens ser maior que o das mulheres em nossa sociedade.

E a clientela, é majoritariamente feminina?

Elisa: Atendo aproximadamente 65% de mulheres e 35% de homens.

Ana: A maioria feminina

Danielle: Sim!!! Mas não é pelo fato de eu ser mulher e sim pelo crescimento da mulher na sociedade, a mulher vem quebrando tabus e se tatuando muito mais que os homens, aos poucos o preconceito sobre a mulher tatuada está se diluindo e a tendência é perecer.

Como e por que surgiu a ideia de um estúdio onde só trabalham mulheres? Pode-se considerar um viés feminista nesta decisão?

Danielle:Não considero o feminismo, até por que já abri espaço para tatuadores fazerem trabalhos como convidados, tive o prazer de ver Diego Nunes tatuando na minha loja uma vez. Os homens não são abominados por mim, na verdade o que geralmente acontece é que eles mesmos se afastam, acho que pelo fato de ser uma mulher no comando. Acredito que o que nos diferenciava, era um ambiente mais leve, pois as meninas tendem a ser mais carinhosas. Mas ter um estudio só com tatuadoras tem seu lado ruim, nos bastidores acho que as mulheres são muito mais competitivas, o que as deixavam sem noção, chegava até haver discussões no momento de distribuir trabalhos, mas eu fazia de acordo com a experiência de cada uma, na minha consepção eu não podia dar um trabalho mais elaborado a uma pessoas com pouca experiência, por uma questão ética e então tudo terminava numa guerra de egos, particularmente não gosto desse tipo de postura e atualmente por isso que me desfiz da idéia e resolvi trabalhar sozinha outra vez. Não é uma decisão definitiva, mas no momento prefiro assim.

Sofre ou já sofreu preconceito por ser uma menina?

Danielle: De familiares nunca, de clientes algumas vezes, mas eu até admito a ignorância e de colegas de profissão recentemente, coisa que eu nunca imaginei acontecer por não ter havido caso em oito anos de profissão. Mas não vale a pena nem comentar. Mas de modo geral sempre fui muito respeitada pelos colegas, esse foi um fato isolado. Acho que ele se sentiu ameaçado no momento rs!!!

Elisa: Principalmente no começo, quando não tinha muito trabalho pra mostrar, era comum as pessoas indagarem: “Você é tatuadora?” Me incomodava, claro, mas hoje em dia me garanto com o meu trabalho e falo: “Antes de formar a sua opinião, veja o meu trabalho.” Até hoje trabalhei em uns 5 estúdios diferentes, claro que a maioria de tatuadores era masculina, muitos deles deram em cima de mim no começo mas logo se tornaram grandes amigos. Ainda assim, nunca me desrespeitaram com relação ao trabalho, apesar de ter amigas na profissão que sofreram um bocado.

Ana: Para ter algum respeito dentro do meio tive de mostrar meu potencial, enfrentei muitos problemas em estúdios que trabalhei, muitas desavenças e inveja sim, mas isso só me fez querer ser melhor ainda na minha arte. Você pode justificar suas falhas por conta de muitos fatos ocorridos, ou simplesmente pode reverter a situação a seu favor.

Existe um tipo de sexismo onde o tatuador é mais respeitado, visto como o mais apropriado para o trabalho e a mulher o instrumento, que usa a tatuagem como ornamentação para se embelezar, como se fosse um acessório ou maquiagem?

Danielle:Hoje acredito que não há isso. Pelo contrario recentemente tenho atendido uma quantidade maior de homens, que procuram qualidade no trabalho, ambiente limpo e agradável. Os homens reclamam muito dos tatuadores e suas mãos pesadas e falhas de atendimento, com a falta de tato de alguns em lidar com o publico, do ambiente do estúdio, de musica alta Heavy Metal estourando os tímpanos. Uma coisa é fato, os homens são muito mais exigentes que as mulheres e quando tomam conhecimento de tudo que uma boa TATUADORA pode oferecem ao executar seu trabalho, eles não abandonam nunca. Mulheres em sua maioria aplicam carinho materno em quase tudo que faz e os homens gostam disso.

Ana: Creio que isso deva acontecer porque as mulheres tatuadoras são ainda minoria, mas aos poucos vem mostrando tanto ou até mais potencial que os caras. A profissão de tatuador é algo que começou com muita discriminação e hostilidade pela sociedade, e por estar num patamar artístico cada vez mais elevado, a tattoo vem conquistando o espaço feminino e de todos os tipos de pessoas também.

Elisa: Acredito que na tatuagem, com em muitas profissões, as mulheres estão aos poucos, conquistando o seu espaço. A tatuagem no Brasil, num passado próximo, era relacionada à marginais, maus elementos e não vista como arte, mantendo o sexo feminino de uma certa forma afastado do meio. Uma mulher como artista pode ter tanta sensibilidade ou até mais do que qualquer homem artista. Essa sexualização das mulheres tatuadas, o fetiche, creio que se deva justamente pela autenticidade e atitude de uma mulher que suporta a dor, muitas vezes mais que os homens, em nome da arte.

Acredita que a tatuagem, para a clientela feminina, está mais ligada à moda ou à arte?

Danielle:Moda sem duvida!!! A maioria delas procuram tatuagem como adorno. É raro uma mulher ver valor artistico na escolha da tatuagem, elas se preocupam mais com significados e homenagens. Na contramão dos homens que procuram trabalhos mais elaborados, se preocupam em ter uma tatuagem exclusiva, com alta qualidade artistica.

Elisa: Como a maioria das mulheres gosta de tatuagens pequenas e delicadas, estão sempre fazendo uma nova que viram na novela, ou chegam perguntando ‘o que está saindo mais, trevo ou laço?’. Mas isso também vale para homens, com a diferença que a maioria acredita que ‘homem tem que ter tatuagem grande, se não pega mal’, mas se repete a cena de fazer a mesma tatuagem que um jogador de futebol ou ator da TV. Temos que encarar o fato de que pessoas sensíveis à arte não são a maioria em nosso país.

Ana: Depende, é como se vestir: existem pessoas que se importam muito com a moda e outras que simplesmente se vestem de acordo com seu gosto próprio. A tattoo não foge disso.

Por outro lado, ainda rola preconceito da sociedade com a menina tatuada, associando à marginalidade e afins?

Ana: Vejo isso hoje em dia mais em pessoas bem conservadoras e de mais idade, e mesmo assim bem menos..cada dia que passa a tattoo se mostra mais arte.

Elisa: Sim, bastante. Eu tenho muitas tatuagens grandes e visíveis. Muita gente torce o nariz quando passo, uns elogiam, todos olham. Se a menina não tiver a cabeça feita e mente aberta vai se meter em muita confusão. Já ouvi muita gente me dizer que tenho cara de ‘doidona’ mas quando estou trabalhando e demonstro meu profissionalismo, essa impressão logo passa.

As mulheres já conquistaram espaço no diz respeito a tatuagem?

Danielle: O que eu percebo em relação a isso é que ainda há muita batalha pela frente, as mulheres que se destacam no meio são poucas, pois a maioria que já tatuam não se preocupam muito em se qualificar. Nessa profissão o aprendizado é eterno e se o profissional não se doar totalmente à arte, não há evolução.

Elisa: Em nível mundial, diria que sim, temos muitas mulheres com trabalhos incríveis e reconhecidos no ramo, como a própria Kat Von D, Lola Garcia, Angelique Houtkamp, entre outras. O Brasil está se encaminhando, temos algumas mulheres com trabalhos fortíssimos, mas enquanto houver uma convenção de tatuagens só para mulheres, continuaremos a separar o sexofeminino do todo, mesmo que sutilmente.

O que tem mudado desde que você entrou na profissão até hoje?

Danielle:Apareceram mais meninas no mercado, há mais conscientização no que diz respeito a higiene e contenção de doenças transmitidas pelo sangue e contaminação cruzada. Muita coisa melhorou e muita coisa tem que melhorar. Seria ótimo se fossemos reconhecidos como profissão, nossa responsabilidade é muito maior do que se imagina, não temos compromisso com apenas com a estética, uma tatuagem trabalha totalmente a autoestima de quem a carrega e isso é muito gratificante. Acho que merecemos esse reconhecimento. Seria uma grande vitória.

Elisa:No Brasil o que mudou basicamente, no último ano, foi a atenção da Anvisa ter finalmente se voltado para os estúdios, fiscalizando os materiais e condições nas quais os tatuadores trabalham. Isso é muito favorável para nós pois, aos poucos, a clientela vai se conscientizando da necessidade real da biossegurança aplicada de forma correta, como uma proteção à sua própria saúde.

Ana: Vejo mais meninas trabalhando e colocando a cara numa competição como eu venho fazendo desde 2007. Aliás, o grande motivo que me fez fazer isso foi justamente o fato de não ver mulheres ganhando prêmios naquela época, quis muito romper essa barreira.

Acha que o trabalho de Kat Von D, à frente do Los Angeles Ink, ajudou a desmistificar a profissão?

Danielle:Ah sem duvida!!! Ter uma tatuadora famosa na TV foi muito importante para mostrar que as mulheres também podem. O Mais interessante é que o assunto é explorado como novidade, mas nem é, quando eu estava nascendo a Ana Velho já tinha estúdio em Ipanema e fazia seu trabalho muito bem feito para a época. Também tem a Medusa que é veterana, nunca vi as mulheres no mercado de tatuagem como novidade, por já conhecer a existência de algumas mulheres na profissão, o que é realmente fato é que somos minoria, mas o motivo disso eu desconheço.

Elisa:Certamente, ajudou principalmente na desmistificação da mulher como tatuadora, já que o mundo todo pode acompanhar os trabalhos realizados por ela e suas companheiras de forma magistral. Mostrou ao telespectador todo o procedimento descontraidamente, fazendo com que muitas pessoas que sentiam medo da dor ou da desaprovação, realizassem seus sonhos de se tatuar.

Qual a maior dificuldade que você enfrenta?

Danielle: Conciliar a vida de mãe com a profissão, pois a tatuagem toma muito do meu tempo. Essa é uma das maiores dificuldades, a outra é a dificuldade de comprar material de qualidade, principalmente tintas, o governo é muito cruel e nos amarra de todas as maneiras não nos deixando muitas opções.

Elisa:O fato de o tatuador não ser reconhecido como profissional no Brasil. Esse é um passo muito grande que estamos longe de conquistar. Os direitos do tatuador como trabalhador do país, com condições justas de trabalho e reconhecimento. Muita gente me pergunta “O que você faz além de tatuar?”. Você perguntaria isso à um médico ou advogado? A sociedade ainda tem um preconceito muito grande em relação à arte no nosso país.

Ana: A sociedade que acha que a nossa profissão ainda não é algo muito certo na vida. Algo que me irritava bastante era quando achavam que pelo fato de eu ser mulher só tatuava coisas fofinhas e pequenas.

Já aconteceu de clientes entrarem em estúdio e ignorarem só pelo fato de serem mulheres?

 Elisa:Hoje em dia acredito que isso aconteça pouco. É fato que recebo muitas indicações dos meus clientes, do contrário não estaria tatuando no meu estúdio na minha própria casa, sem necessitar de movimento de loja de rua. Como disse numa resposta anterior, no começo, com pouco trabalho pra mostrar isso pode acontecer, mas com o passar do tempo, o amadurecimento do trabalho e do bom atendimento, tudo isso some.

 Ana: Já sim, mas quando eles olham o meu álbum e perguntam 10 vezes se fui eu mesma que fiz, adoro ver a cara deles (risos), isso rompe um tabu e faz as coisas serem diferentes. Não existe isso de ser homem ou mulher, se você for bom, eles tirarão o chapéu pra você e te respeitarão. Lógico que contamos com qualidades incríveis além da nossa dedicação, mas isso somente um homem que já se tatuou com ambos poderá dizer. O importante é dar o melhor de si, para fazer com que essa fase passe o mais rápido possível e que cada vez mais possamos mostrar o nosso jeito feminino e incrível de fazer as coisas.

Por fim, selecionei dois comentários de entrevistados e gostaria que comentasse a respeito:

Não acho que seja preconceito, acho que seja uma questão de intimidade. homem, na maioria, gosta de conversar com homem.. e a tatuagem tem toda o processo de elaboração e aquele período de tempo para ser feita.. acredito que quemnão tem costume de fazer, vai procurar alguém que irá compreender o que ele quer e de cara pensa em outro homem.. e sem contar que tatuagem doí pra carai que só a porra, imagina um cabrão se cagando de dor pra uma mulher.. acho que constrange..” (Rebeca Aderaldo, estudante de Audiovisual)

Danielle: Eu discordo totalmente, pois mostrar fragilidade a uma mulher é bem menos constrangedor, afinal a mulher nasceu para sentir dor e sabe muito bem o que é isso, partindo das cólicas menstruais até o parto. Eu acho muito normal o homem ser mais sensível a dor que as mulheres e isso não me surpreende. Me coloco no lugar de homem, na qualidade de macho forte, dando chilique na mão de outro homem, isso eu acharia estranho, apesar também de não achar a tatuagem um procedimento tão doloroso assim.

Elisa: Discordo completamente. Tenho muitos clientes homens que se sentem completamente à vontade comigo, mesmo por horas a fio e estes indicam amigos e familiares. Acho que se a mulher mostrar profissionalismo e um bom trabalho, qualquer ser humano que se sinta atraído pela arte dela, vai querer um trabalho dela no próprio corpo. Há também o fato de muita gente achar que as mulheres tem a ‘mão mais leve’, sendo mais sensíveis e infligindo assim, menos dor no tatuado. Claro que isso é relativo, conheço muitos homens tatuadores com ‘mãos de fada’ (eles aliás detestam esse termo, obviamente). Isso pode ser relativo também, eu sempre tive facilidade em conversar com qualquer tipo de pessoa, seja qual for o sexo, opção sexual, faixa etária ou classe econômica.

Ana: Olha te digo que tem homens que preferem muito mais sofrer nas mãos de uma mulher…rs Dizem que somos mais pacientes, detalhistas e até que a mão é mais leve. Daí vai de cada um.

“Mas acho q preferiria fazer com mulher, que geralmente tem a mão mais leve e mais cuidado com traços e nuances de cores. Mais vocação artística, eu até diria.” (Rodrigo Gomes, estudante de Engenharia Química)

Danielle: Acredito!! Em todos esses anos de experiência é o que eu mais ouço dos homens mesmo. Acredito que as mulheres se apeguem mais a detalhes. Mas quanto a vocação artística, isso é uma atribuição do ser humano independente de sexo.

Elisa: Acredito que se trate mesmo de uma questão de preferência, se você observar o trabalho do pintor Celso Mathias, vai perceber a sensibilidade e intimidade que ele tem com as cores e formas. Tanto homens quanto mulheres tem sensibilidade perante a arte, cada um da sua forma, formando um leque gigantesco de possibilidades de escolha pra tatuagem específica que cada pessoa deseja fazer. Creio que seja o mesmo que perguntar à uma mulher se ela prefere se consultar com um doutor ou uma doutora, vai da preferência de cada um.

Ana:São opiniões, que devem ser respeitadas, esse foi o ponto de vista não só dele, mas de muitos que me procuram aqui.

*É mais conhecida por seu trabalho como tatuadora no reality show Los Angeles Ink e comanda uma equipe na qual os homens são minoria (um homem para quatro mulheres). Kat também lançou recentemente o livro High Voltage Tattoo onde revela sua trajetória, referências, histórias de infância e adolescência, seus trabalhos mais importantes,assim como também traça um panorama da tatuagem no mundo atual, traz técnicas, estilos mais populares e mais 10 páginas duplas nos quais os próprios desenhos estampados em seu corpo são revelados em detalhes

Kat Von D em cena do reality show Los Angeles Ink

Curiosidades:

As mulheres são quem mais recorrem à remoção de tatuagens.

20% das mulheres tatuadas têm uma tatuagem na zona lombar.

O número de mulheres tatuadas quadruplicou entre 1960 e 1980.

Para fotos de mulheres tatuadas do início do século XX, clique aqui

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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