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Entrevistas, Todos

Pablo Villaça em entrevista – Publicado no Teia Livre

O cinema é uma das formas de arte mais completas que existem, sem sombra de dúvida: temos ali a interpretação, a literatura, o som, a imagem e a fotografia. quando estes cinco elementos se combinam em uma obra, a química é perfeita: não há como ficar imune ao artista. Ele nos domina, manipula nossas emoções e, de quebra, nos faz refletir.” 

Pablo Villaça

 

Pablo começou a escrever sobre cinema quando chegava da faculdade, como um hobbie. No que ele chama de “época jurássica da internet no Brasil”, escrevia suas críticas em BBS e, tendo sete em Belo Horizonte, era responsável pela área de cinema de seis deles. Escrevia sobre os lançamentos da semana e dava uma cotação. Com a internet chegando ao Brasil, sentiu necessidade de criar um espaço para reunir suas críticas e, posteriormente, compartilhar notícias e informações sobre os filmes, criando em 1997 o portal Cinema em Cena. Em 2000, Villaça procurou o grupo AeC e vendeu 50% da empresa. “Eu dei muita sorte. A AeC é uma das maiores empresas de Tecnologia da Informação do Brasil, mas eles são muito pé no chão. Eles gostam de investir em cultura e tem o maior carinho pelo Cinema em Cena”. Pablo demonstra que também é pé no chão. Quando perguntado se acredita que o sucesso do site se deve às suas críticas, faz uma expressão incrédula e diz: “Acho que não é só isso. Muita gente entra no site atrás das notícias e nem lê as críticas. O site também tem um imenso conteúdo, uma enorme base de arquivos. É possível você entrar lá e ler notícias antigas, que não se encontra mais em lugar nenhum. Você consegue, por exemplo, ler notícias sobre o primeiro Homem-Aranha, quando o Leonardo DiCaprio era cogitado para o papel de Peter Parker e James Cameron para dirigir.”Assim se inicia o primeiro editorial do site Cinema em Cena, fundado pelo mineiro Pablo Villaça, 36, que há 17 anos se dedica ao que ele considera uma arte: a crítica. No seu caso, a crítica cinematográfica. Villaça, como crítico de cinema já colaborou em revistas nacionais como Sci-Fi Cinema e SET, já publicou colunas em inglês no site Hollywood Elsewhere e atualmente colabora com oMovie City News. Villaça também já foi apresentador de TV em uma rede local de Minas Gerais, como também venceu o prêmio teatral SESC-SATED de Melhor Texto Adaptado. Este ano, foi eleito pela Online Film Critics Society (OFCS) como o primeiro membro de língua não-inglesa a ocupar o cargo de Diretor da associação. Pablo Villaça é diretor do site que hoje é uma das maiores referências sobre a Sétima Arte no Brasil: O Cinema em Cena, no ar há 14 anos. Além disso, Villaça também é professor: já percorreu mais de dez cidades em todo o Brasil ministrando seu curso de Linguagem e Crítica Cinematográficas, atividade esta que o enche de satisfação, “adoro ser professor, e a crítica já funcionava pra mim como uma ferramenta didática”, ele diz. Para chegar a tanto, precisou abandonar a faculdade de medicina cursando já o sétimo período: “Foi uma aposta. Várias vezes pensei que iria me lascar”, nos conta durante um almoço informal no Rio de Janeiro, onde Pablo se encontrava para mais uma edição do seu curso.

O crítico de cinema

Pablo Villaça sempre afirma não ser o papel de um crítico dizer para o leitor se ele deve ou não assistir a um filme e, apesar de listar vários nomes que reconhece sendo grandes críticos brasileiros, afirma que a maioria dos sites e blogs que se propõem a falar profissionalmente sobre cinema, o fazem de maneira “muito pedestre”.

– A boa crítica é aquela que faz o leitor aprender mais sobre cinema e linguagem cinematográfica, não apenas saber mais sobre o filme. Mesmo que eu não goste do que o cara escreva, o que importa é como ele desenvolve a sua ideia. É vergonhoso alguém que grava um vídeo chorando ao sair do cinema e chama aquilo de crítica. Não é crítica, é a opinião dele. O que ele chorar me diz sobre o filme? Não me diz nada e muito menos sobre cinema. Só me diz que ele ficou emocionado. E para quem serve isso? Só para ele.

E é por isso que Pablo diz não considerar um elogio quando alguém diz gostar de suas críticas por concordar com o que ele diz, “meu papel não é esse, não é dizer que você está certo. Meu papel é te desafiar, fazer você pensar mais sobre o filme”. Para ele, a crítica atinge o seu objetivo quando se percebe que o leitor está ficando mais exigente, quando o leitor começa a enxergar mais sobre o filme e sobre cinema através da sua crítica. E considera não apenas vergonhosa a crítica que funciona como guia de consumo, como também ofensiva para o filme “O cara leva 3, 10 anos fazendo um filme para você reduzi-lo a uma nota. Por mim, acabaria até com a cotação de estrelas do site – elas sim, funcionam como guia de consumo e são subjetivas; o que significam três estrelas? – e já tentamos fazer isso mas não deu certo com o público, os leitores não entenderam. Por isso nunca reduzo o filme a uma cotação, sempre escrevo um texto justificando”. É quando Pablo afirma que o papel do crítico profissional é estudar sobre a teoria e linguagem cinematográfica, conhecer o trabalho de todos os grandes nomes do cinema para que não acabe se tornando um mero resenhista, o que para muitos tem sido o caminho mais fácil.

A emoção

Porém alguns leitores ficam ressabiados com tamanha exigência técnica, ao ponto de perguntarem a ele se assistir criticamente a um filme não reduziria a capacidade de se envolver com a história e os personagens e se emocionar. Pablo garante que não:

– Para a maioria das pessoas, o cinema é feito apenas de história e atuação. Elas enxergam 20% da obra, não veem os truques, se emocionam mas não sabem porque se emocionaram. E no cinema é tudo pensado. Não é porque eu analiso um filme que perco a capacidade de me emocionar. Por exemplo, sempre que eu assisto Up!(Altas aventuras) com meu filho, ele já sabe que eu vou chorar, mas eu sei o que me levou a chorar. É muito melhor poder investir o seu dinheiro e enxergar 80% 90% até 100% da obra. Você nunca vai me ver chorando com Gladiador, por exemplo. Nunca vai me ver chorar com uma cena como a de Olga, com mãozinha se separando em câmera lenta e música de violino, porque isso não é novela, não. Não me subestime, filme. Não me subestime, diretor. Eu fico muito estressado quando percebo que o diretor está apelando para me fazer chorar. E é isso que as pessoas não entendem. O público não tem a obrigação de entender de teoria e linguagem do cinema, é pra isso que existe a crítica, que é uma maneira legal, fácil e rápida de aprender mais sobre o assunto mas muita gente acha que a crítica tem que validar o que se achou, quer que a crítica concorde com ele. Acaba perdendo o potencial do filme.

A Ética e a crítica

 

Pablo dirigindo o curta "A_Ética"

Em 2008, Pablo lançou o curta-metragem A_Ética, que culminou também no lançamento da Cinema em Cena Produções. Pela primeira vez, o público pôde conferir a habilidade de Pablo – que desde os 14 anos já fazia vídeos – como roteirista e diretor. No curta, que foi assistido mais de duas mil vezes nas primeiras 24 horas em que foi lançado na Internet e figurou em festivais de Minas Gerais, um homem desperta em um galpão e se descobre vítima de um sequestro muito peculiar: seu algoz inicia um discurso sobre sua ética particular até que a história sofre uma reviravolta. Villaça afirma que a ideia surgiu a partir de um sonho que teve com um homem em um galpão e então decidiu desenvolver um roteiro para um curta. O filme foi extensamente analisado por vários de seus leitores, alguns se aventurando pela primeira vez a escrever uma crítica sobre cinema e Pablo fez alguns posts em seu blog satisfeito com o carinho e a dedicação de seus leitores em ajudá-lo com críticas construtivas. Porém, também houveram aqueles que não tiveram piedade alguma. Pablo se diverte quando diz que muitos agiram com uma espécie de revanchismo e afirma que de maneira alguma as críticas o incomodaram. “O importante é que as pessoas tenham pensado sobre o filme. Eu costumo brincar dizendo que nunca um diretor estreante teve um filme tão analisado de imediato quanto o meu, mas de maneira geral a recepção foi boa. Até mesmo as viagens eu acho bacana. A arte é interativa, precisa dela própria e do observador. A partir do momento em que a arte é lançada, a intenção original do diretor não importa mais. Com o filme pronto, a tua interpretação é tão válida quanto a minha.”. Mesmo que sua experiência como crítico o tenha ajudado a evitar alguns erros e mesmo utilizando uma linguagem cinematográfica sofisticada ( como por exemplo mostrar que um personagem está no domínio da situação ao enquadrá-lo no lado direito da tela), Pablo afirma não estar completamente satisfeito com “A_Ética” e acredita que a experiência o ajudou a se tornar um crítico “mais bonzinho”, diante da dificuldade que é se produzir um filme “ainda mais no Brasil, com orçamento baixo”.

– Já saí do cinema pensando em detonar um filme. Já tinha o texto todo na minha cabeça, mas depois pensei melhor. Era uma produção do Nordeste, que já é um lugar com muito menos facilidades que o Rio de Janeiro e São Paulo. Decidi não escrever a crítica, para não demolir o filme.

E já existe expectativa para o próximo curta-metragem de Villaça, que está em fase de pré-produção e cujo único detalhe adiantado é que o novo curta também foi inspirado em sonho. Em seu blog, ele dá mais uma pista: “posso dizer que o curta é uma brincadeira de gênero (ou melhor gêneros), um exercício de estilo ancorado por um recurso metalinguístico(…)Vai ficar bom? Não faço a menor ideia. Mas sei que me divertirei horrores fazendo esse filme”.

Quando as artes se misturam

 

Livro de Pablo Villaça

Em 2005, a convite do amigo Rubens Edwald Filho, Pablo lançou o livro “Helvécio Ratton: O Cinema Além das Montanhas” (Imprensa Oficial SP; Coleção Aplauso) nascido após horas de entrevista com cineasta deBatismo de Sangue, que Villaça escolheu por admirar sua história de vida (Helvécio militou contra a ditadura militar no Brasil e se refugiou no Chile, que viria também a sofrer uma ditadura algum tempo depois). Pablo conta que “por vaidade de autor” acabou se arrependendo de escrevê-lo em primeira pessoa:

– Muita gente pode dizer ”ah, ele entrevistou o cara e transcreveu”, mas não foi assim. A forma contada é toda minha, o texto é meu. Inclusive me permiti a alguma liberdade criativa, como por exemplo no momento em que estoura o golpe no Chile. É fato que Helvécio pegou uma carona para o trabalho e o trânsito estava todo parado. Também é fato que durante todo o dia, Allende fez uma série de pronunciamentos no rádio, e provavelmente em algum momento Helvécio o ouviu. Então eu coloquei o Helvécio ouvindo o prenunciamento no carro. E ele aprovou. Antes de lançar o livro, eu mostrei a ele e ele gostou das liberdades de linguagem, porque não violaram sua história.

Pode-se dizer, então, que Pablo fez em livro uma adaptação da história real como as vistas no cinema? “Não, no cinema eles deturpam completamente”. E no cinema, muitas vezes não apenas a história real é modificada, como também muitas obras da literatura e dos quadrinhos, o que desperta a ira de muitos fãs exigentes.

– As pessoas não entendem que são dois bichos completamente diferentes. O cinema é outra narrativa. Se o filme for muito fiel ao livro ele pode não funcionar como cinema, e às vezes o filme consegue ser até melhor que o livro, como o caso de Clube da Luta. O final de Clube da Luta, o filme, é bem melhor que o final do livro. O cinema não funciona como a literatura, você tem que adaptar uma história para duas horas, não se pode gastar tempo e não se tem 500 páginas para explicações. Conhecer o original ajuda a entender a história, mas não o filme. O filme precisa se sustentar sozinho.

Para ele, esta visão equivocada é mais frequente entre quem acha que entende de cinema simplesmente por ir ao cinema. Mas o cinéfilo de verdade não é aquele que assiste a muitos filmes, mas aquele que pensa na linguagem do filme. Aquele que consegue reconhecer que mesmo filmes chatos podem ser bons, por exemplo. O que faz Pablo insistir em que aquele que consegue enxergar além da história e da atuação, tem uma experiência cinematográfica muito mais rica.

E o prolífico Pablo Villaça não para por aí. Pensa em compilar suas críticas em livro, em “fazer alguma coisa com os ‘Jovens Clássicos’ (série de críticas iniciada em 2007, com o objetivo de homenagear filmes considerados fundamentais na História do Cinema, mesmo que produzidos nos últimos 30 anos) e já está com o projeto de um novo livro sobre o qual, por motivos contratuais, não pode fornecer maiores detalhes. “O que eu posso dizer é que será sobre um filme brasileiro específico. Eu apresentei a proposta do projeto e eles aceitaram. O livro deverá sair em junho ou julho de 2013.”

Com tantos projetos e compromissos, Pablo sentiu que estava na hora de passar a editoria do Cinema em Cena para as mãos dedicadas do jornalista Renato Silveira, editor do site Cinematório e amigo de longa data. E fala sem rodeios sobre sua decisão:

– Eu era um péssimo editor, sempre trabalhei sozinho e não sabia gerir uma equipe. Comecei a ficar muito ocupado não tinha tempo para me dedicar como deveria. O Cinema em Cena tem um grande conteúdo mas está engessado, é difícil de navegar, o público não sabe acessar esse conteúdo. Então resolvi deixar tudo nas mãos do Renato, que já havia trabalhado comigo no Cinema em Cena e queria voltar. Ele me disse que não queria se envergonhar do Cinema em Cena, que fez parte da história dele, mas o site estava caminhando para isso, então falei para que ele escolhesse a equipe dele e que reformulássemos todo o site. Estou muito otimista com esta mudança, deixar de ser editor foi tirar um peso das costas. Meu foco agora são as críticas, os festivais e os cursos – que eu adoro.

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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