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Comportamento, Música, Opinião, Todos

A transgressão de Amy Winehouse, publicada no Teia Livre

Amy Winehouse em Belgrado

Quando estourou em 2006, Amy Winehouse fascinou crítica e público ao trazer para o universo da música pop, canções que atualizavam o soul da Motown dos anos 60, com letras deliciosamente cruas e sinceras, um quê de mulher liberal do século XXI, cantadas com a perfeição de uma diva. Mais ainda que o som original, Amy conquistou o público por ser uma espécie de tradução dos anos 60: das roupas, cabelo e maquiagem que Amy publicamente admitiu serem influências de adolescentes e donas de casa sessentistas, ao comportamento transgressor, regado a drogas, sexo e liberdade, em uma perfeita re-leitura da contracultura que vigorou nos 60s. Porém hoje, os tempos são outros. E se nos anos 60 a juventude da época queria romper com tudo o que remetesse a gerações anteriores e acreditava que dessa maneira estariam construindo uma nova sociedade; se eles buscavam na liberação sexual uma forma de enfrentar o moralismo imposto e na utilização das drogas maneiras de explorar a fundo os níveis da consciência a fim de produzir arte ou apenas se permitiam ir onde os outros não iam; hoje todas estas práticas nos remetem muito mais a jovens auto-destrutivos, que buscam nas drogas e no sexo maneiras não de experimentar, mas de obter prazer intenso e de rápida duração, de forma a amenizar o vazio e as frustrações das suas vidas. Todo o glamour que havia em testemunhar artistas como Jim Morrison e Janis Joplin em incríveis performances no palco sob o efeito de drogas – e que levou a morte dos mesmos – hoje se transforma em um lamentável circo de horrores. Com a consolidação dos paparazzi e da mídia de fofoca, artistas que possuem uma vida pessoal agitada e recheada de festas, bebedeiras e confusões, ficam reféns – e por consequência também seu público – de notícias onde observamos de camarote a degradação da vida alheia, repleta de escândalos (fabricados ou não) e vexames que se tornam maiores do que a arte que produzem e fica difícil para os que assistem distinguir aquele que usa da promiscuidade para ganhar dinheiro por estar na mídia da personalidade talentosa que possui uma doença e que permitiu ter seu estilo de vida auto-destrutivo ser acompanhado por milhares de pessoas ao redor do mundo.


A prova de que Amy não usa seu vício como auto-promoção é que raramente vemos alguma entrevista concedida pela cantora, quase não aparece em grandes eventos com cobertura da mídia, andou muitos meses longes dos palcos e, desde o Back to Black nao lançou mais nenhum CD inédito. Ora, se a intenção de Amy fosse faturar, nada mais natural do que junto dos escândalos, tivéssemos lançamentos de musicas novas (mesmo que feitas por algum produtor, o que nunca foi o caso de Amy) e muitos shows agendados para que ela pudesse, entre uma canção e outra, dar algum pequeno vexame, para a alegria daqueles ávidos pelas transgressões da moça. Mas o que vemos é uma menina fragilizada, de olhar vago, que em muitos momentos parece entediada ao entoar suas antigas canções e que não possui mais a mesma voz de outrora. Em alguns momentos, ficou mesmo incapaz de cantar.


Depois do seu irregular “retorno aos palcos”, inicializado neste ano aqui no Brasil, com performances que foram de muito boas a lamentáveis, Amy Winehouse protagonizou um dos maiores vexames da sua carreira ao ser vaiada por aparecer atrasada e completamente bêbada em um show em Belgrado, Sérvia, onde tentava, sem sucesso, cantar enquanto cambaleava e esquecia as letras. O resultado foi o cancelamento de toda a sua turnê européia e ferias forcadas por tempo indeterminado, até ter condições de se apresentar com todo o seu potencial o que, segundo seu empresário Raye Cosbert, pode levar anos. Ciente da sua situação, Amy não aceitou o cachê do show e ainda pediu que o dinheiro dos ingressos fossem devolvidos.


A notícia, porém, é bem-vinda. Se em 2006, Amy despediu seu agente Simon Fuller por tentar interná-la em uma clínica de reabilitação, 
“Não me agradou a ideia de ele chegar a casa do meu pai dizendo que tinha um carro me esperando lá fora para me levar para uma clínica de reabilitação. Então eu disse não e o despedi da minha vida”, declarou a cantora na época, agora, Amy dá sinais de maturidade, reconhecendo que tem um problema sério e precisa tratá-lo se quiser retomar a sua carreira. O primeiro passo para Amy não se transformar em uma caricatura de si mesma e um fantasma do que foi no passado, já foi dado. Resta saber se Amy irá aproveitar mais esta chance ou se ainda seremos obrigados a ouvir que se ela tivesse morrido teria encerrado a carreira com mais dignidade. Aqui, nós torcemos para que o sonho não se acabe para Amy!

Veja também:

Estrelas da música antes e depois das drogas

*Infelizmente, pouco depois da publicação deste artigo, Amy Winehouse veio a falecer de causas ainda inexplicáveis em 23/07. Acredita-se que seu histórico de abuso de álcool e drogas tenham contribuído para o quer que tenha acontecido e levado a cantora à óbito. Abaixo, dedico uma pequena homenagem à cantora, inspirada por sua música October Song:

Amy flies in paradise

Foto exibida no site oficial da cantora após sua morte e em seu funeral

“Today, my bird flew away
Gone to find her big blue jay
Starlight, before she took flight
I sang a lullaby of bird land every night”

Amy Winehouse

“She spoke until one day she couldn’t be heard
She just stopped singing
Ava was the morning, now she’s gone
She’s reborn like Sarah Vaughan
In the sanctuary she has found
Birds surround her sweet sound
And Ava flies in paradise”

Cena do videoclipe da música "Back to Black"

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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