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Entrevistas, Todos

Entrevistão Renata Dias Gomes (íntegra)

Íntegra da entrevista publicada na Revista Forum

Renata Dias Gomes

Por Renata Arruda, com colaboração de Emygdio Costa

Fui uma adolescente que queria mudar o mundo com a minha arte. Não desisti. Mas mudei. Diria que hoje quero tocar o mundo com a arte”, é a declaração de Renata Dias Gomes, 27, atualmente colaboradora da novela Amor & Revolução, exibida pelo SBT.

O primeiro contato que tive com ela, foi em 2004 a partir de uma lista de discussão que visava esclarecer as mulheres sobre os benefícios do parto natural e da maternidade ativa. Naquela época, Renata (ou Renatinha, como é conhecida) era chamada de bicho-grilo por ter uma postura diferente daquela que a cultura burguesa em que vivia ditava. Aos 19 anos, sabendo o que queria, teve o parto de sua primeira filha, Maiara de parto normal hospitalar porém sem nenhuma intervenção, amamentou em livre demanda e nada de paninhos para esconder o ato. Seis anos depois, foi além: dessa vez o parto do seu filho, Tom, foi em casa. Tranquilo e natural, como deve ser. 

Em sua profissão, Renata está interessada em realizar projetos engajados e espera um dia alcançar a independência criativa para “colocar pra fora” as suas próprias ideias. Nesta entrevista exclusiva, entre uma mamada e outra de Tom, ela conta um pouco sobre a profissão, comenta sobre o caráter muito mais comercial do que ideológico das emissoras e o provável medo de parte dos autores em investir em histórias politizadas. Renata também fala sobre os avós ilustres e o curioso fato da Globo manter comunistas em época de ditadura.

Você declarou que precisava de independência de ideias e ideais

Eu trabalho como colaboradora, obedecendo ordens de um autor, muito generoso, mas a história é dele. Eu sempre defendi que eu pudesse trabalhar  nas coisas em que eu acreditasse, coisas engajadas- e estou num projeto em que eu sempre acreditei bastante, que fala sobre a ditadura.

Tem a ver com eu querer ter trabalhos autorais. Preciso de trabalhos autorais pra colocar as minhas ideias pra fora, só que ainda não cheguei nesse ponto da minha carreira.

Tiago Santiago

Tiago é um cara muito fácil de lidar, de colaborar, é muito generoso, dá muito espaço. Mas é normal, a novela é dele, é sempre ele que decide o que vai ficar no final. E ele tem muito mais experiência que eu, trabalhou muito mais pra estar lá. Eu sou profissional, trabalho pra uma empresa e vou obedecer.

Opção por novela

Quando eu comecei a escrever novela, eu comecei porque acreditava nisso, eu sempre acreditei na novela. Eu fiz faculdade de cinema e sofri um preconceito muito grande na faculdade. Eu dizia que queria trabalhar com televisão e ficava todo mundo me olhando torto. Mas eu acredito muito nas novelas, porque vi novelas boas dentro de casa, então eu acredito que dá pra fazer uma novela de qualidade.

Tem a ver com herança de família também. Na faculdade era um diálogo recorrente, as pessoas viraram e falavam que novela é sempre a mesma coisa água-com açúcar, é chato, é coisa de mulher; vários preconceitos em relação à novela. Mas eu dizia “olha só, O Bem Amado foi uma novela super-politizada, o Roque Santeiro também”, “Ah, mas aí é Dias Gomes”. Mas Dias Gomes é o meu avô, poxa! (risos)

Eu tive não só um exemplo mas dois porque minha avó [Janete Clair] fez uns trabalhos sociais muito legais também. E ambos também foram muito censurados.

Eu tinha dois exemplos muito claros dentro de casa de que era possível fazer novela e fazer um produto de qualidade.

É um trabalho suado escrever novela, porque você escreve quarenta páginas de texto por dia. Mas eu escrevo um pouco de tudo e acho que cada história surge com o seu perfil. Tem história que não dá novela, tem história que dá uma peça, um conto.

E quando o público não gosta e tem que mudar?

Acho que você só muda se você quiser. Acho que você tem que escrever um trabalho de qualidade. Como no cinema, você não quer fazer um filme pra ninguém assistir. Por mais que você faça um filme em que saiba que não vai ser um arrasa-quarteirão, você quer que as pessoas vejam teu filme, se não pra quê você vai fazer cinema? Isso sempre foi um questionamento pra mim. Eu adoro filme alternativo, é o que eu gosto de ir ao cinema assistir, mas eu sei que tem filmes que não saem daquelas salas de 30 lugares da Estação Botafogo. Então, se eu quero fazer um negócio politizado, eu quero que o maior número de pessoas vejam.

As pessoas fazem uma crítica grande porque acham que a novela não pode ser boa, porque você tem que escrever 40 laudas por dia, é um trabalho muito grande. E às vezes as mudanças são previstas, é um pouco de ilusão achar que tudo muda por causa do público, porque a gente também já tem um caminho. A novela é aberta, mas dá pra manter uma coerência e dá pra fazer um trabalho bem feito. É cansativo, você tem que trabalhar muito, você acaba a novela exausto, mas claro que dá pra fazer.

Você declarou “Novela é industria, tem obrigação de dar lucro e retorno ao investidor, mas é feita por artistas”. Como fica o trabalho do artista cerceado pelo lucro?

A gente tenta não entrar nessa onda da indústria, a gente tenta ser artista, pelo menos eu, a minha postura é essa, tentar manter o meu trabalho isento. E aí o meu trabalho pra isso é fazer da melhor forma possível pra não precisar de interferência. É aquela história, se você dá audiência você vai ter liberdade criativa. O caminho é esse. É fazer um bom trabalho e eu acho que se você conta uma boa história o público compra a tua história. Tem uma linha de pessoas que acham “ah, vou escrever novela pra classe C e D, classe C e D gosta disso e então eu vou escrever isso. Não. Eu sou contra isso, eu acho que você não tem que menosprezar o teu espectador, senão você não vai tirar ele daquilo. Eu acho que você tem que contar a tua história, da melhor forma possível, e se você fizer isso bem, se for uma boa história, o público compra a tua ideia. Meu avô fez Saramandaia, gente!

Eu acho que as pessoas ainda estão interessadas [em histórias politizadas], mas não se faz mais novelas assim.

Por que?

Não sei, acho que rola um pouco de preguiça, de medo. Eu não acho que o público tenha emburrecido não, se alguém emburreceu foram os autores. Acho que a culpa é nossa. Isso é uma questão pra mim também, eu fico pensando no que será que aconteceu. Mas eu penso também que assim: morreu Dias Gomes, morreu Bráulio Pedroso, morreu Janete Clair, morreu um monte de gente que escrevia essas coisas e ainda não surgiram outros que façam esse tipo de trabalho.

Mas imagino que isso aconteça também pelo fator dinheiro. Criou-se uma fórmula, como por exemplo a do humor, que funcionou e não querem arriscar sair dali...

Mas isso depende, porque se você é autor e você apresenta um projeto bacana, diferente disso, o teu projeto pode ser aprovado. O que eu acho é que os autores que tão aí trabalham nessa linha, aí eu acho que é o medo do autor, entendeu? O autor quer fazer sucesso, aí ele fica com medo de ousar e de fazer um negócio diferente porque pode não dar certo.

Você colabora com Amor e Revolução, que vem sendo criticada…

O público achou a novela violenta. Quando a novela estreou o público criticou a violência pela violência, porque era gratuita. Quando você vê um personagem sofrendo e você embarca na história dele, você vai junto, você até sofre, chora e você engole aquela violência muito mais fácil. O problema é que a novela estreou mostrando tortura pesada…e aí tem outra coisa. A pessoa que, se não viveu aquilo conhece alguém que viveu – o que é totalmente diferente de uma violência ficcional – aquilo fala fundo pra um monte de gente. Eu conheço um monte de gente que viveu as torturas na época e que falam “eu adoro a novela, mas não consigo ver as torturas, me remete à coisas”, tem esse fator. Mas o grande problema é que a novela tinha as cenas de tortura, fortes pra caramba, muito bem feitas, mas você não sofria pela personagem que estava sofrendo, você não tinha o envolvimento. Incomodava o público porque ele não estava envolvido com aquela história. Se o público tivesse envolvido, ele não ligaria, eu tenho certeza. Amor e Revolução veio pra mostrar isso [a tortura] mas deviam ter apresentado primeiro os personagens, a história deles, como eles viviam na época, pra depois entrar com o golpe.

E a cena do beijo gay? Li que nos bastidores do SBT a novela vinha sendo apelidada de “Sessão Prive” e alguns atores não estavam gostando muito

Cena da novela Amor e Revolução

 

A repercussão foi ótima. E eu acho que tem mais é que fazer, eu acho que precisa acabar com isso de uma vez. O casal criou a maior química, elas estão super bem, é o casal que tem mais torcida na novela.

 

Os atores eu não sei, porque eu não tenho contato. O problema não é ter beijo gay, o problema é ter beijo gay fora do contexto. Beijo gay, beijo hétero, cena de sexo hétero, pra tudo isso você tem que ter uma história envolvente.

A pessoa quando assiste a novela vê o personagem tal envolvido com o personagem tal, ela fica envolvida com os personagens…

Lógico, você torce pelo casal. A novela, os filmes, qualquer história desperta isso.

Por se passar nos anos 60, existiu essa intenção demonstrar mulheres com traços feministas? Por exemplo, em uma cena uma personagem secundária morde um cara que a beija e diz: “Pra você aprender a nunca mais querer me calar com um beijo”.

Não, não. A gente tá mostrando as guerrilheiras e várias delas foram feministas mas não tem nada de muito intencional não.

E o corte dos depoimentos?

Aquele abaixo-assinado [que a Associação Beneficente dos Militares Inativos e Graduados da Aeronáutica (ABMIGAer) fez pela internet com a intenção de tirar a novela do ar, acusando o governo de ter firmado um acordo com a emissora para que ela apoiasse a Comissão Nacional da Verdade], não deu em nada, não influenciou o rumo da novela.

Eu não sei o que houve pra eles tirarem os depoimentos agora, mas os depoimentos eram ótimos! A posição oficial do SBT é que eles não conseguiram depoimentos de direita, só conseguiram depoimentos de esquerda. Sei que o Jarbas Passarinho falou, mas eles argumentaram que queriam colocar os dois lados.

Mas alguns espectadores não esperavam aparecer este lado da direita…

É, eu me lembro que logo na coletiva de imprensa o Buri falou “a gente tá aberto pra receber depoimentos de todos os lados”, mas ninguém de direita procurou. Depois disso, dois de direita procuraram e foram ao ar. A produção tentou o depoimento de alguém forte de direita, acho que do Ustra e ele não quis porque ficou com medo de ser editado…e não sei, agora falaram isso. Não sei, eu não mexo com nada disso, meu trabalho é só escrever.

Houve um comentário no blog de uma espectadora, Valéria Fernandes, que dizia:

Eu queria ver nesta novela as diferenças de pensamento tanto na direita, quanto na esquerda. Queria ver as pessoas comuns que apoiaram o Golpe, não caricaturas. Queria ver as disputas dentro do próprio Exército [que acabaram aparecendo algum tempo após o comentário], com o grupo de Castelo Branco e o de Costa e Silva se enfrentando. Queria ver gente. Não personagens tipo.”

Faltaram pessoas que não tinham nada a ver com isso. Porque é engraçada a capacidade que a gente tem de se adaptar, e sempre foi uma bandeira que eu carreguei dentro da novela. Eu falava “A gente se adapta”. No Rio mesmo, a gente vive dentro da realidade de uma cidade violenta e a gente sai de casa. E eu acredito que aquelas pessoas também viviam dentro daquela realidade. A maioria das pessoas inclusive não se envolveu. Muita gente apoiou o golpe, muita gente tinha medo do comunismo. Eu não dou razão, mas acho que pra você defender a sua posição você tem que entender muito bem a posição do outro também. Eu sou de uma família de esquerda,então pra mim o mais natural e lógico é achar qualquer tipo de ditadura militar um absurdo e o comunismo um projeto interessantíssimo. Pra mim isso é o normal. Quando a novela foi lançada, eu via vários comentários assim “estão mostrando o outro lado da história” e eu ficava assim “outro lado?” (risos). Pra mim era esse o lado que existia, era o lado da esquerda, é o lado em que eu cresci. É lógico que eu sempre tive interesse em conhecer o “outro lado”, que pra mim era a direita, mas pra mim o natural, o normal, é alguém chegar e defender mesmo o país, a democracia. É absurdo alguém não defender a democracia. Mas eu consigo entender que assim: o comunismo fracassou na Rússia, virou uma ditadura assim como em Cuba e as pessoas não queriam a ditadura. Não era o comunismo simplesmente daquela coisa burguesa de “ah, vão dividir o meu dinheiro com o povo, vão entrar na minha casa”. É lógico que tinha gente rica que tinha medo do “vão entrar na minha casa e vão mandar eu emprestar o meu quarto pra alguém”, mas tinha a classe média que tinha medo da ditadura. Morreu gente no paredão em Cuba, a ditadura na Rússia também foi violenta e depois de instaurada também. Então as pessoas tinham medo. Quando o exército entrou ele era muito apoiado pela classe média.

Eu passei muitos anos na escola sem entender porque as pessoas não queriam o comunismo. Pô, é ótimo, todo mundo é igual! Agora estudando pra essa novela eu pensei “preciso entender isso de uma vez por todas” e eu entendi que as pessoas tinham medo da ditadura. Em todos os lugares em que foi implantado, virou uma ditadura. Na China, na Coreia do Norte. O comunismo entrou não só como uma ditadura de poder, como uma ditadura de ideias. Até hoje já Coreia do Norte a internet é controlada pelo governo. Então eu acho que o grande medo era esse.

Isso aliado ao poder da mídia que era enorme. Nos EUA, na época do Macarthismo eram disseminadas várias ideias…

É, a de que comunista comia criancinhas! (risos) Mas essa ideia eu sempre achei muito absurda. Por que ter medo do comunismo? Eu acho que as pessoas tinham medo da forma em que ele foi implantado em vários lugares,porque foi implantado de forma violenta. Quando os militares entraram, eram bem apoiados por uma grande parcela da população. Eu vi em um site o depoimento de um cara que era do exército, um cara de baixo calão – porque quem deu o golpe em 64, fisicamente foram os baixo escalão e eles acreditavam no que estavam fazendo. E eu vi o depoimento de um cara contando que eles vieram de Minas pro golpe e quando ele voltou pra Minas eles eram tratados como heróis, o povo apoiando muito, tipo “livrou a gente do mal”. Tanto a classe média que não tinha tanta informação apoiou como os que fizeram acreditaram naquilo. Eu sei que a ditadura não entrou com uma proposta, eu sei que entrou com o peso dos EUA, eu sei de tudo isso, mas isso quem sabia era o alto escalão do exército, quem implantou mesmo o golpe acreditava naquilo. Eles não sabiam que tinha Operação Brother Sam, que os EUA estava com não sei quantos navios prontos pra atacar. Isso tudo foi resolvido nas cabeças.

Acho que se a gente tivesse mostrado o lado da direita também, iam sobressair as ideias da esquerda, não ia ser o contrário. Acho que a solução não é defendê-los como certos, mas acho que você tem que colocar os dois lados e deixá-los duelarem entre si e o público entende e o público vai pro caminho,até porque depois a ditadura mostrou o lado horrível dela.

Na época que a novela entrou no ar estava rolando aquela história na Líbia, estava no auge. Todo mundo queria que tirassem aquele ditador. Então se o exército entra ali – porque normalmente você só tira com o exército – se ele entrar, serão recebidos como heróis. Imagina se depois esse exército pega e troca e vira uma ditadura do exército. É isso.

E eu comecei a perceber que dava pra enxergar por esse viés também. O povo apoiou em um primeiro momento mas depois…Não acho que Jango era bicho-papão não, não acho que a intervenção do exército tenha sido de todo absurda num primeiro momento. E o Castelo Branco era um democrata que acabou virando o primeiro grande ditador (risos). É um absurdo! Eu vi revistas da época e o Castelo Branco era super querido…

Mas será que a mídia também não queria que ele fosse querido? Porque a mídia apoiou o golpe.

A mídia apoiou, a Globo tinha aquele interesse da concessão e tal, mas eu acho assim: transfere a situação pra outro país pra você olhar de fora. A gente tem um ditador na Líbia. O Jango não era um ditador mas todo mundo tinha medo que ele entregasse o país, e você quer que aquilo mude, então você apoia quem tá entrando, a força que tá vindo. E aí quando Castelo Branco foi eleito pelo colegiado, ele foi eleito com voto do Juscelino, que era um cara considerado super-democrata. A disputa era entre o Castelo Branco e o Costa e Silva e as pessoas acreditavam que o Castelo Branco ia devolver o país, mas o filho da mãe não devolveu o país. E aí tem o outro lado da história, que dizem que ele não devolveu o país porque ele foi ameaçado. Dizem que botar o Castelo Branco no governo foi uma coisa muito séria, porque – eu não entendo nada da hierarquia do exército- mas parece que o chefe de turma dele era o Costa e Silva, não era ele. E aí quando ele foi eleito, quebraram a hierarquia do exército. E o Costa e Silva passou lá com a gangue dele e começou a ameaçar o filho do Castelo Branco e o Castelo Branco foi assassinado. Ele foi “morrido” em um acidente de avião. Então talvez ele não tenha devolvido pro povo porque quem ia morrer ali era ele.

Eu acho que as emissoras não estão interessadas em ideologia e política, no caso das novelas. Tanto é que meu avô fazia novelas politizadas dentro da Globo no auge da ditadura. Meu avô era comunista e trabalhava na Globo! (risos) A maior prova pra mim de que as emissoras são comerciais e não ideológicas é isso. O meu avô fez O Bem Amado no auge da ditadura, dentro da TV Globo. Meu avô nunca foi mandado embora do país. Você acha que se ele não fosse contratado da Globo não teria sido preso, torturado e exilado? É lógico que teria sido, como todo mundo foi! Ele ficou aqui por dois motivos: primeiro, a minha avó era a esposa dele e se ele fosse embora ela iria junto, e ela era a maior audiência da Globo. E segundo, que ele também fazia novelas de sucesso. Tem aquela frase famosa do Roberto Marinho que diz “Nos meus comunistas cuido eu”. Ele pegou o meu avô, Mário Lago, Lauro César Muniz, Bráulio Pedroso. Os comunistas todos trabalhavam dentro da TV Globo naquela época.

Meu avô ia sempre pro DOPS, meu pai dizia que tinha uma rotina: toda vez que mudava o presidente o meu avô sumia por uns tempos,ele se escondia porque não sabia o que vinha por aí (risos). Ele ficava um tempo escondido, ele não podia sair do país. Então de tempos em tempos ele tinha que ir lá prestar esclarecimentos pro DOPS. Mas ele dava e teve até a história famosa que ele foi na época do Astro e contou qual era a próxima história que ele ia escrever e aí olharam pra cara dele e falaram assim: tudo bem seu Dias Gomes, tá liberado. Agora me conta aí, quem matou Salomão Hayala? (risos)

Mas voltando a ideologia dentro da emissora, acredito muito que o importante é contar uma boa história. Se você tem uma boa história na mão e você tem um poder de convencimento bom, você consegue. O problema é que ás vezes o burocrata que está sentado lá é um imbecil e não entende. Mas se você convence ele que você pode fazer uma novela politizada e que você vai fazer sucesso, vai contar uma boa história, ele embarca na tua fácil. E a gente tem vários exemplos disso. O Salvador da Pátria era uma novela que dava uma audiência absurda, na época acharam que era uma crítica ao Lula, porque era um analfabeto alçado a salvador da pátria, mas não tinha nada a ver com o Lula, por acaso o Lula surgiu na mesma época fazendo campanha. Eu tenho certeza de que o Lauro [César Muniz] era eleitor do Lula, talvez não em 89 mas nas outras, com certeza. Então o importante é você contar uma boa história.

Política

Eu gosto muito de política mas não sou filiada a nenhum partido. Nas últimas eleições eu quase me filiei ao Partido Verde, ainda bem que eu me filiei (risos), foi por muito pouco. Mas eu acho que não posso. Pra ser artista, eu preciso ser isenta pra criticar tanto a direita quanto a esquerda, acho que faz parte da função do artista, pelo menos dessa área que eu gosto, que é uma área de conscientização. Acho que a arte está aí pra isso. Tem uma frase do Lenin que ele dizia que o cinema é pra nós a mais importante das artes e eles davam apoio pro Eisenstein fazer filme, porque era a forma de divulgar o regime, e eu continuo achando isso, só que eu acho que aqui no Brasil, onde a gente tem um país muito grande e que não se conhece, eu acho que a novela…eu bato na tecla da novela porque o cinema não alcança o público no Brasil ainda. Filme nacional é super difícil de penetrar, e a novela penetra. Não tem energia elétrica e nego tá vendo a novela lá sei lá como, mas vê a novela (risos). Acho que a gente tem esse poder nas mãos e a gente pode usar isso de uma forma positiva. É lógico que tem que ter na cabeça que a gente não tá fazendo Telecurso, tá contando história. A arte tem essa função desde sempre, na Grécia Antiga o teatro já contava histórias pra conscientizar. A gente tem que tomar cuidado pra não levantar bandeira, pra não ir pra um lado ou pro outro, precisa colocar os dois lados pra duelarem e deixar que o público tome partido, que vá pesquisar mais. Vai mais da capacidade de ganhar audiência do que de ideologia.

 

Dias Gomes e Janete Clair

Dias Gomes era marxista e Janete Clair também teve algumas cenas censuradas. Como foi o seu contato com seus avós e suas obras?

Eu vivi bastante com meu avô, quando o meu avô morreu eu já tinha 15 anos. Era um avozão e eu nunca quis saber muito das novelas dele não, porque desde pequenininha eu sabia que queria escrever, então eu não quis me influenciar. Eu tive mais contato com o meu avô como avô. Eu sabia que uma hora seria inevitável, o meu avô é um autor que é estudado em escola, eu li os livros do meu avô pela primeira vez na escola, na oitava série a minha escolha adotou “o Santo Inquérito” e “O Pagador de Promessas”, então eu sabia que uma hora eu ia ter que ler, não ia ter escapatória (risos).

Já com a minha avó foi uma relação diferente, porque eu não a conheci. Eu tinha dois meses quando ela morreu. Pra mim ela foi um mito, tinha um quadro na parede lá de casa com a foto dela, tipo “aquela é a minha avó”. E ela foi muito presente porque o meu pai era muito ligado a ela. Dizem que ela me esperou nascer, ela sabia que estava muito doente e aí ela me esperou. E isso foi muito construído em casa, essa relação da gente, porque eu nasci e logo depois ela morreu, ela era muito presente. Meu pai falava muito nela e tudo era “ah, a sua avó ia adorar”, eu fui crescendo com isso. Eu tinha mais interesse na mulher Janete Clair do que na autora, até hoje toda pessoa que eu encontro que conheceu a minha avó eu fico querendo saber como é que era. E eu sabia que ela tinha sido uma grande autora.

Eu fui conhecendo a obra dela aos poucos, essa coisa assim do mito, de ela ter sido a maior autora, de ela ter dado cem pontos de audiência. Isso eu fiquei sabendo aos poucos. Pra mim, ela era a minha avó, que morreu logo depois que eu nasci. Depois uma grande escritora, depois a maior escritora. Não tem outra. Não tem outra dramaturga de expressão que nem ela, ela deu cem pontos de audiência! Vocês tem noção do que são cem pontos de audiência? É todo mundo vendo!

A minha avó sofreu muito preconceito dos amigos do meu avô, porque diziam que a arte dela era alienada e ela não era alienada, ela tinha as bandeiras dela que eram diferentes das bandeiras dele. A minha avó era feminista. Sabe, eu pego a sinopse dela do Astro e tem a personagem que é a Lili, que dirige um táxi, isso em 78 era uma revolução, uma mulher que dirige um táxi! E aí ela sofreu muito preconceito dos intelectuais de esquerda, diziam que ela era alienada mas eles não compreendiam a obra dela, eu acho. Era muito popular, né, e eu acho que ser popular não era legal pra eles. Aí quando ela deu cem pontos, eu pergunto assim “o que estavam assistindo os intelectuais de esquerda quando ela deu cem pontos de audiência? (risos)

Meu avô só não sofreu preconceitos por fazer novelas…isso é engraçado, porque a minha avó sofreu um preconceito grande por fazer novela, de ser alienada e não sei o quê, e ele não sofreu. E ele também fazia novelas, e fazia novelas de muito sucesso. Roque Santeiro deu 98 pontos de audiência, O Bem Amado foi um sucesso absurdo. Mas como ele era da patota as pessoas não tinham problemas com ele fazer novela. Alguns amigos dele foram fazer novela também, mas a maioria ficou só no teatro e cinema. E o meu avô também era do teatro, meu avô era bicho do teatro e foi fazer novela porque não conseguia trabalhar, pelas questões com a ditadura, ele acabou indo parar na televisão assim. E antes ele tinha ido parar no rádio porque ele precisava trabalhar, tinha filho, um pouco do que eu vivo. Acho que todo escritor acaba vivendo um pouco isso.

Ele foi escrever novela pensando também na audiência, tem isso na biografia dele, ele fala que por todo o preconceito que a novela sofre, ela tem a plateia que o teatro nunca deu a ele, mesmo ele tendo sido um grande dramaturgo. Pô, o filme dele ganhou Cannes, mas as pessoas assistiram muito mais O Bem Amado do que O Pagador de Promessas, que ganhou Cannes.

E quase ninguém sabe dessa informação…

É, as pessoas não sabem. Foi o primeiro filme [brasileiro] indicado ao Oscar e é do meu avô. Quando o cara é bom, o cara é bom (risos).

Mas voltando, eu sempre me interessei muito pela história da minha avó como mulher, pela trajetória dela e pelas coisas que ela fez. Todo mundo falava muito bem dela, ela era uma pessoa super querida, sei lá, eu quis resgatar uma relação que eu não tive, é uma relação completamente idealizada. Minha avó é meu grande amor.

Parece haver uma preferência pela sua avó do que por Dias Gomes, mas talvez seja porque seu contato com ele foi como avô e não com o “Dias Gomes”, já a Janete Clair…

É, mas é engraçado você falar isso porque na verdade eu vou muito mais de encontro com as ideias do meu avô, muito mais! Isso pra mim é um conflito enorme, porque eu passei a vida inteira louvando a minha avó e tudo o que eu escrevo quando eu vou ver, eu falo “cacete, é muito Dias Gomes! (risos)” É muito, muito, muito. E eu só fui conhecer a obra dele tarde, eu já gostava de escrever coisas que tinham a ver com ele.

Talvez por ter convivido com ele

É, talvez a única explicação seja essa, que ele me influenciou como pessoa. Só pode ser isso, porque eu já escrevia quando fui conhecer sua obra.

E seu pai mandava suas coisas pra ele…

Mandava escondido as coisas que eu escrevia. E ele me incentivava muito, muito, muito e ligava lá pra casa e dizia “Renata, é o vovô. Poxa, muito boa aquela coisa que você escreveu”. “Mas como você sabe?”, “Ah, seu pai me mandou” (risos). Meu pai me incentivou muito a escrever também, até hoje me dá a maior força. Eu sempre soube, desde muito pequena que queria ser escritora. Eu pensei em fazer letras, mas achei que seria mais pra professora e eu queria expandir, eu queria escrever e conhecer outras áreas, aprender como era direção, luz. Achei que podia me ser útil para escrever, e foi.

Compra dos direitos de Janete Clair e remake de O Astro

O SBT comprou os direitos de umas novelas de rádio dela e eu acho ótimo! Eu sou contratada do SBT, mas não é o meu ideal de vida adaptar uma novela da minha avó nesse momento, eu queria primeiro conseguir fazer o meu trabalho, que as pessoas conhecessem o trabalho da Renata pra depois adaptar uma obra dela e virar uma homenagem, porque senão fica parecendo que eu estou me aproveitando do trabalho dela pra me lançar. Ou então, espera aí: a Janete Clair é um mito, não tem como ser melhor do que ela. Então se a novela for bem é porque a Janete Clair é boa pra caramba. Se for ruim, é porque a Renata estragou (risos). Então melhor não agora, é muita responsabilidade fazer Janete Clair, eu prefiro fazer mais pra frente.

Sobre o remake de O Astro, eu estou gostando, eu acho que eles tem que fazer sempre. Eles mudaram várias coisas, o que é normal, mas às vezes eu fico frustrada, porque eu queria ver a cena daquele jeito (risos). Mas eu acho legal, eu acho bacana que refaçam e que revisitem a obra dela.

E como macros série também é ótimo, pra quem escreve é bom. Oitenta, cento e vinte capítulos é um tamanho bom. O problema é que a novela não se paga com essa quantidade de capítulos. Tem um cálculo que parece que a novela só começa a dar lucro no capítulo 100.

Então por que investem neste tipo de projeto?

Eu acho que é porque vende pro exterior. Esse tipo de projeto tipo O Astro melhora a imagem da emissora, porque é um projeto mais bem feito, tipo aquelas minisséries, e vende pro exterior. Eles se pagam na venda pro exterior. O Lauro César Muniz está defendendo novelas menores, ele argumenta que tem como você diminuir o custo, porque fazendo novelas menores você vai focar em menos tramas, diminuir o número de personagens e o custo geral. Eu acho interessante, acho que pode trazer pra novela um público que não tem hábito de assistir novelas. E cansa menos, também. Então talvez você consiga fazer um negócio com mais qualidade de texto, sem enrolar nem fazer barriga na novela.

Projetos pessoais

Tenho projetos em outras áreas que não consigo tocar agora porque a novela tomou tempo. Tenho projeto de uma peça de teatro e tenho sinopses de novela também, que vão acontecer na hora em que a emissora achar que eu tô pronta, na hora que for pra rolar. Tenho alguns projetos de novela, mas não sei como funciona muito, às vezes alguém que apresenta o teu projeto, alguém que já é um autor mais consagrado, um diretor. Às vezes eu posso apresentar. Eu não tenho pressa não, mas às vezes bate um desespero de querer colocar logo as minhas histórias pra fora, as minhas ideias. Penso em escrever livro algum dia também, mas acho que as histórias surgem com seus formatos. Eu gosto é de escrever. Ponto.

E acho que meu caminho é mais ficção. Mas quem sabe um dia, quando eu tiver alguma coisa biográfica pra contar, né. Quem sabe um dia quando eu tiver mais história. Mas hoje em dia pra mim é ficção, eu gosto de ficção. Tenho algumas coisas encaminhadas, mas tenho que terminar. Acho que agora, terminada a novela, eu terei um tempinho de férias e eu quero terminar esses projetos, eu preciso. É aquele negócio que a gente falou logo no início, das ideias e ideais. Eu preciso colocar os meus projetos pra fora. Mas ainda vou ter que correr atrás disso.

E cinema? Você estudou cinema, fez alguns curtas…

Eu penso em fazer algo, mas a forma como o cinema é feito, não só aqui no Brasil, é muito difícil de o autor conseguir fazer um trabalho autoral e o meu ideal é conseguir chegar em um trabalho autoral, eu estou batalhando pra isso. Eu estou ali colaborando, mas é pra chegar em um trabalho autoral e no cinema é muito difícil, normalmente o autor da história é o diretor, ele contrata alguém pra escrever a história pra ele, mas a ideia não parte do roteirista, muitas vezes.

E aí o cara que tá com a bola normalmente é o diretor, o produtor…e ele faz a história que ele quer. Aí você tem lá, a sua história genial e o cara tem a dele, ele quer fazer a dele.

E ele acha genial também…

Isso não é um problema só no Brasil não, é um problema no mundo inteiro. É a mesma coisa que na televisão, só que na televisão quem investe é a emissora, mas é tudo comercial.

E como é escrever com dois filhos?

Cara, é complexo. Mas eu sempre falo assim: minha avó tinha três e escrevia sozinha, então eu consigo. Se ela conseguia e tinha três, então eu consigo, só tenho dois (risos).

Eu tive a Maiara antes de começar a trabalhar, eu estava fazendo faculdade. Aí eu tranquei a faculdade porque eu vomitava e desmaiava. Eu comecei a vida já junto com ela, não tive uma adaptação, que as pessoas normalmente têm. Você também, né? Você também teve filho cedo. Mas pra mim foi tranquilo, eu me adaptei a vida depois de ter a Maiara, não sei como é a vida sem Maiara, a vida adulta sem Maiara não tem.

Mudando de assunto, ainda se considera “bicho-grilo”?

Eu falo de brincadeira, eu nunca me considerei bicho-grilo, as pessoas que me consideram (risos). Eu me acho muito urbana. Pô, eu tive parto em casa, eu amamento meus filhos, não uso maquiagem, fui tomar açaí em trabalho de parto…aí as pessoas acham que eu sou meio bicho-grilo, mas eu não acho, não.

E eu acho que de 2004 pra cá [época em que teve sua primeira filha] tem mudado muita coisa na cabeça das mulheres sobre maternidade ativa, parto natural. Eu vejo muito mais gente tendo parto em casa do que naquela época. Muita gente famosa também. Acho que está bem melhor, sim.

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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