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Entrevistas, Música, Todos

Entrevista com a cantora Pitty, capa da Revista Cultural Novitas #11

Capa

Lançando seu quinto DVD, intitulado A Trupe Delirante no Circo Voador ou “Flying Circus Troupe Delusional”, como traduziu um tanto erroneamente a revista americana Billboard – onde Pitty chegou a estar em terceiro lugar na parada Uncharted – e que figurou na lista dos mais vendidos quando ainda estava em pré-venda, Pitty já se firmou como uma das mais bem sucedidas cantoras brasileiras, mas ainda existe uma parte da mídia que insiste em ver a moça como uma “artista menor”, voltada unicamente para o público adolescente. Pitty acredita que existe má vontade quando a mídia se refere à nova safra de bandas de rock nacionais, colocando “tudo no mesmo saco”, sem o cuidado de analisar individualmente cada trabalho, como se todo artista mainstream tivesse as mesmas características e objetivos. Mas a realidade é que cada vez mais o público de Pitty vem mudando. Hoje, já é possível encontrar muitos maiores de 25 em seus shows e não, não estão acompanhando seus filhos e sobrinhos. Porém, Pitty afirmou em entrevista à Uol que ainda é bastante comum se referirem à sua audiência como “público teen”.

Divulgação do álbum Chiaroscuro. Foto: Carol Bittencourt

Com a excelente resposta dos fãs, Pitty está animada em gravar um CD do projeto (e em recente atualização no twitter, o duo deu a pista de já estar preparando um disco) e em realizar mais shows, ao final da turnê da Trupe. Ou não.

Ao contrário de certa parte de bandas que alcançaram a mídia, Pitty não tem medo de abordar temas relevantes e que talvez fossem pouco atraentes para uma juventude desacostumada a pensar sobre assuntos sérios. Em uma das músicas do duplo-platinado Admirável Chip Novo (2003), “O Lobo” – resgatada em seu novo CD/DVD, Pitty evoca Thomas Hobbes para concluir que o maior inimigo do homem é ele mesmo e sua sede de poder, algo não muito diferente do que ocorre entre figuras da mídia, por exemplo. Já em “Brinquedo Torto” do seu segundo CD, “Anacrônico” (2005), Pitty assume a voz de alguém que se deixa manipular pelo sistema, indo para o abate feito gado e literalmente se permitindo ser vendido como um mero produto. Também em “Anacrônico”, Pitty discorre sobre a necessidade cada vez maior das pessoas se fecharem em grades e muros, que não podem nos manter escondidos de nós mesmos (De Você) e ainda apresenta uma música obscura, que sutilmente critica os abusos cometidos em nome de Deus (Quem vai Queimar?). No álbum “{Des}concerto” (2007), Pitty provocou polêmica com a música “Pulsos”, por supostamente fazer apologia ao suicídio, ao que a cantora respondeu: “Ninguém é burro de se matar por causa de uma música”.

Em seu último disco de estúdio, Pitty buscou O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir e as experiências femininas para escrever a música “Desconstruindo Amélia”.

A canção promoveu um dos momentos mais curiosos do DVD, onde as meninas, espontaneamente, resolveram tirar suas blusas e agitá-las para o alto, em uma espécie de “queima de sutiãs do século XXI”, como definiu a cantora. Também neste CD, Pitty – como boa fã de psicanálise – abordou a questão da Sombra de Jung, o lado obscuro e inconsciente da nossa personalidade que muitas vezes relutamos em admitir até para nós mesmos e cuja não-aceitação pode se tornar perigosa para a saúde mental do indivíduo (recentemente apresentado no cinema através do premiado filme “Cisne Negro”). No DVD “Chiaroscope” a música ganhou um inusitado clipe com todos os músicos vestidos de coelhos gigantes. Freud explica.

Para o novo lançamento, Pitty inovou ao compor a música “Comum de Dois”, inspirada na história do cartunista Laerte que há pouco tempo se assumiu como transgênero, causando alvoroço na mídia. Na letra, Pitty dá demonstrações de compreensão e aceitação “Quando apontam aquele olhar/Ele sabe e deixa passar/O salto dói, ele sorri/Mais machucava ter que omitir/Prazer e dor de ser mulher/Por essa noite é o que ele quer”. Para a cantora as pessoas não deveriam se “separar em comunidades e guetos baseado em opção sexual, raça, religião. Gente é só… gente”.

A música está sendo muito bem recebida pelo público, principalmente o LGBTS que levou sua bandeira para o show da Pitty e inclusive rendeu à cantora um carinhoso e-mail do cartunista. “Ele é um querido”, Pitty declarou.

Acervo pessoal

Mas até para uma artista como Pitty as coisas podem ser difíceis. À época do lançamento do single “Fracasso”, muitas rádios se recusaram a tocar a música por ela ser “muito pesada” e houve até quem dissesse que não tocaria uma música com este título. Exigiram de Pitty uma versão acústica ou o lançamento de uma balada do disco, que acabou sendo a opção adotada pela banda e rendeu um belo clipe rodado em super 8, como que retratando um sonho que se passa nos anos 70.

Conversei com a cantora sobre todos estes assuntos, em entrevista exclusiva realizada por e-mail – que a cantora respondeu em um “Domingo de sol, tranquilo, eu, os gatos e o vinil do Panda Bear na vitrola” – fugi um pouco das perguntas óbvias que uma figura famosa e acessível como ela já respondeu à exaustão e tentei concentrar o foco nas influências, nas referências, nos pensamentos de Pitty que vão além do rock e além da música. As fotos que ilustram a matéria são do arquivo pessoal da cantora, que gentilmente cedeu para a publicação, mostrando mais uma faceta da artista que já atuou, redigiu roteiros para seus próprios clipes, dirigiu um curta, mantém na rádio Transamérica o programa Segunda Sem Lei, premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), e procura na escrita e na música maneiras de não enlouquecer. E revela que a mensagem que espera transmitir a seu público é que ele tenha “coragem de ser, sentir, olhar, cheirar, vivenciar, aprender, errar. Que a gente pode e deve ter autonomia, senso crítico e mente atenta”

Você acaba de lançar o DVD “A Trupe Delirante no Circo Voador”, onde parece uma espécie de retorno às raízes apresentando um show com menos “produção”, e um maior foco na música, na performance, na energia de m show ao vivo. Me lembro dos primeiros shows que assisti em 2003 quando você estava na batalha para levar sua música à todos os lugares onde fosse possível. Uma cantora de rock preocupada com a música e a mensagem. E esse registro está sendo lançado oito anos após o lançamento do primeiro CD. Pode-se dizer que o conceito do DVD é realmente um retorno às origens? Você sente falta desse clima rock and roll sem o status de superstar que alcançou nos últimos anos?

Pitty Leone: É sempre bom manter o foco e lembrar do que realmente importa nisso tudo. Na verdade, nunca me afastei. Esse status que você menciona (e o que quer que isso signifique, rs) nunca pode ser maior do que a principal fagulha que motiva as pessoas a fazerem arte: expressão, autoconhecimento, libertação. Continuo nessa, e talvez esse DVD seja só mais um passo nessa mesma direção.

No DVD “A Trupe Delirante” você trouxe duas parcerias pouco conhecidas do grande público: Hique Gomez e Fábio Cascadura, que inclusive é CO-autor de um lado B do disco. Assim como no seu primeiro DVD, O “Admirável Vídeo Novo” também notei que estava mais à vontade na parceria dos seus amigos dos tempos de underground, dando um espaço interessante para que eles aparecessem. O que admiro bastante, já que grande parte dos artistas privilegia participações óbvias, algumas chegando até a pegar carona no sucesso alheio. Em que estas participações são importantes para você e você pensa em continuar realizando estas parcerias nos seus próximos trabalhos? Ou é algo que se rolar, será naturalmente?

Pitty: Sempre que rolou, foi naturalmente. É simplesmente óbvio pra nós aqui que seja assim, que a gente tenha por perto essas pessoas que já fazem parte do nosso dia a dia, independentemente do quão conhecidas elas possam ser. O que conta é o que elas somam ao projeto e às nossas vidas. De quebra, ainda pode ser uma boa oportunidade para mais pessoas conhecerem o talento desses músicos. Participações óbvias, visando a “notícia”, sem uma real conexão ou identificação entre as partes é calculismo demais pro meu gosto.

Na música “Desconstruindo Amélia” você comenta um pouco sobre as dificuldades da mulher moderna. A música parece ser um dos pontos altos dos shows, com meninas sem blusa entoando a música como um hino, como se a canção lhes trouxesse bastante auto-estima, ainda mais neste momento do país onde temos a primeira mulher presidente. Aliás, Dilma Rousseff sempre comenta que quando era candidata uma menina pequena perguntou a ela “Ué, mas mulher pode ser presidente?” e que a eleição dela era uma resposta de que sim, mulher pode. Me surpreende que, nesse contexto, a música fique como uma espécie de lado B do Chiaroscuro. A música não é radiofonicamente interessante ou, propositalmente, você preferiu não levantar nenhuma bandeira que remetesse ao feminismo? Podemos esperar algum lançamento de clipe ao vivo dessa canção?

Pitty: Nunca pensei nela como lado A ou B. É mais uma música do disco, apenas. E parece que as músicas por si só vão ganhando, com o tempo, essa conotação de single ou não. Adoro essa canção e adoro cantá-la nos shows. Me surpreendi com a reação das pessoas e especialmente das meninas que, espontaneamente, tomaram a liberdade de interpretá-la daquele jeito, tirando a blusa numa espécie de “queima de sutiã” do século XXI. Nunca fiz qualquer menção, nunca induzi de nenhum jeito, nunca sugeri que fizessem isso. Parece ter sido realmente a forma delas dizerem que entendem a mensagem e que estão dispostas a encarar essa questão de “peito aberto”. É interessante isso, o seio é um dos símbolos femininos mais fortes e icônicos: é através dele que alimentamos literalmente a humanidade. Vê-las se desnudando ali corajosamente e quebrando esse estereótipo de “mulher não fica sem blusa porque é proibido” chega a ser emblemático. Simbolicamente é como hoje, com as mulheres conquistando cada vez mais territórios anteriormente proibidos. Considero a música radiofônica, mas parece que as rádios pensam o contrário, pra variar. E também não sei se haverá clipe dela, eu gostaria de trabalhar essa música.

Em contrapartida, temos “Comum de Dois”, música inspirada na história do cartunista Laerte que trouxe a tona um assunto pouco comentado, que é o cross-dressing. A música fala sobre uma liberdade muito específica e que gera (e quebra) tabus: a liberdade de gênero. Parece que está sendo muito bem recebida pela comunidade gay – inclusive em uma cena do DVD, durante essa música, vemos a bandeira do arco-íris levantada, e creio que talvez se tornar um “hino gay” não seja proposital. O que você está achando da repercussão da música e qual o debate que você gostaria que surgisse com a proposta da letra?

Pitty: O mesmo debate que, observando hoje com mais distanciamento, proponho desde “Máscara”: sobre o respeito as diferenças, a tolerância com as escolhas alheias, a liberdade individual e o não-julgamento pré concebido. Há mais estilos de vida e muito mais profundidade do que o que a gente é moldado para aceitar, e todos eles são válidos. Obviamente não fiz a música com intenção de que ela virasse um “hino gay”, mas se rolasse, tudo bem também. É que a questão é muito maior, vai além de um nicho, se estende para relações humanas em geral. Acho tão estranho separar as pessoas em comunidades e guetos baseado em opção sexual, raça, religião. Pra mim todo mundo é todo mundo, tem gente boa e gente idiota em todos esses subgrupos. Gente é só… gente, simples assim. Ou deveria ser, pelo menos. A repercussão tem sido ótima, salvo uma meia dúzia de dois ou três que- como não podia deixar de ser- ainda está muito preso às pequenices.

Você se interessa por quadrinhos, graphic novels? Já se sentiu influenciada por algum artista deste meio?

Pitty: Gosto de várias coisas, Frank Miller e Neil Gaiman, especialmente Sandman. Gosto de quadrinhos eróticos, Milo Manara, Guido Crepax e Paolo Eleuteri Serpieri. Adorava Druuna. E queria ter sido uma das mulheres de Crepax. Elas são de uma força imensa, à frente dos seus tempos, protagonistas de suas vidas, nunca vítimas mesmo quando faziam todo mundo pensar que sim. E também Quino e Lourenço Mutarelli, ácidos e reflexivos. Esses caras me fazem parar pra pensar, e isso é muito bom. Conheci recentemente o trampo do Rafael Grampá e achei foda também.

Ainda sobre o assunto do “retorno às origens”, queria citar um exemplo antes de fazer a pergunta: Amy Winehouse. Uma artista que começou tocando em bares e lugares pequenos e, depois da fama, deu às costas para as grandes apresentações, parecendo cada vez mais entediada com a fama. Porém, ela parece se divertir bastante em todas as aparições que assisti dela cantando em pequenos bares com os amigos. Você também veio dessa cultura de pequenos espaços, bares, lonas, onde muitos que frequentavam eram “da sua turma”. Alguma vez o sucesso lhe incomodou ao ponto de querer voltar a tocar nestes pequenos lugares, longe dos holofotes?

Pitty: Não necessariamente o sucesso, mas alguma sensação de vazio e superficialidade que às vezes acontece quando você lida com gente que está muito longe da essência do que você faz, do que você é. Quanto mais conhecido você fica, mais misturado é o público, os meios de comunicação que falam sobre seu trabalho, tudo. E é um dilema terrível, porque é bom expandir as fronteiras e chegar a mais pessoas, mas ao mesmo tempo trás junto uma banalização da coisa toda. É por isso que sempre me apego ao que me importa e procuro manter as pessoas certas por perto, pra não enlouquecer. E é muito fácil enlouquecer especialmente quando se é muito sensível, o que acho que seja o caso de Amy, Kurt Cobain e tantos outros. Já cheguei a achar que poderia ser o meu, mas tenho segurado bem essa onda. Enlouqueço internamente dia após dia, e expurgo fazendo mais música.

E quando estava batalhando por um lugar na cena, já pensou em desistir?

Pitty: Depende a que “desistir” você se refere. Ao viver de música talvez, já não me lembro. É que parecia tão improvável e impossível, que eu tinha sempre que ter um plano B. Mas jamais consegui deixar de escrever e fazer música. Desistir disso seria desistir de mim mesma. Sinto que nunca poderia abdicar dessa parte mesmo que tivesse que ter um emprego qualquer para pagar as contas da vida adulta.

“Teto de Vidro” me parece uma música sobre experiências e buscas pessoais e o interesse das pessoas em sempre analisar e julgar os outros de fora, está certo isso? É uma música muito adorada pelos seus fãs, mas uma vez li você dizer que esta música não representava mais o que você era. O que mudou?

Pitty: Sim, está certo. O que mudou não foi a ideia contida na música, mas o jeito que ela foi escrita, a construção do texto. Eu era bem nova, aquele era meu vocabulário e percepção na época. Hoje talvez eu dissesse as mesmas coisas de forma diferente, com outras nuances, com mais profundidade. A gente cresce.

Sente, ou já sentiu, vergonha de alguma letra que tenha escrito? E existe alguma de que você se orgulha mais?

Pitty: Não, acho que tudo é representativo do seu tempo. É que nem falei acima: a gente escreve as coisas que consegue escrever em cada fase da vida, de acordo com a vivência. E todas elas são boas e têm/tiveram seu papel porque essa era a verdade e o jeito certo para aquele momento. Não há porquê ter vergonha, o que se faz é entender isso e ir adiante; escrever novas e melhores coisas. E quem sabe mais pra frente eu não sinta o mesmo pelas músicas que escrevo hoje e que parecem tão certas pra mim? Não há alguma específica que eu sinta mais orgulho, mas particularmente as do último disco me deixam bem feliz. Gosto do jeito que minha cabeça está funcionando, e o jeito que isso se esvai pro papel. Devo estar num caminho bom, se sinto que as coisas mais recentes me satisfazem mais que as anteriores, né? Rsrs.

Hoje em dia lhe parece mais fácil para os artistas independentes alcançarem algum reconhecimento? Como você vê esses movimentos de artistas que distribuem seus CDs gratuitamente na internet, o Movimento Música pra Baixar, o Fora do Eixo? Já pensou em lançar algo de maneira completamente independente de gravadora, com o Agridoce, por exemplo?

Pitty: Todos esses movimentos são bem vindos e funcionam muito bem para determinadas circunstâncias. Se a banda ainda não é conhecida, se as pessoas ainda não se interessam em pagar por seus discos, ou mesmo se já tem um certo público e isso surge como uma alternativa de mercado. Acho ótimo. Talvez isso não seja suficiente para uma banda com uma demanda maior, que tenha fãs em cidades menores ou capitais distantes, que queira fazer seu trabalho chegar nas mãos dessas pessoas. Distribuição não é algo fácil, e ainda existe muita gente sem internet que sabe das coisas através de TV aberta, rádio, jornal. Acho que aí entra o papel da gravadora. Essa realidade tem mudado rapidamente, mas ainda existe no nosso país. Não sei como vai ser com Agridoce, mas na minha cabeça nada impede que todas essas coisas coexistam.

Acervo pessoal

Você é a artista de rock mais respeitada dentro do cenário mainstream brasileiro (que não tem muito a cultura de emplacar artistas de rock que durem muito tempo) e até comprou uma espécie de “briga” com as rádios que evitam tocar rock da maneira que a música é concebida, procurando sempre alternativas mais amenas como baladas ou versões acústicas. Me parece que poucos artistas se uniram nessa com você. Como você avalia essa situação? Você acha que o rock no Brasil tente a continuar “no escuro”, com pouquíssimos artistas dispostos a sair da zona de conforto?

Pitty: É complicado. Eu nem quis comprar briga alguma, só propus um debate e uma real explanação das bandas acerca do assunto porque nas internas eu os vejo falar do quanto acham isso castrador e chato. Mas nada vai adiante porque parece que todos têm muito medo. Medo de discutir, de expôr seu desconforto, medo de desagradar e sofrer retaliações. É a política do silêncio; eu não digo que desaprovo, você continua tocando minhas músicas. Não imagina quantas vezes tentei fomentar alguma união entre as bandas não só no que diz respeito a essa questão como em tantas outras. Mas parece que o que impera é a onda do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Não adianta eu não me sujeitar a determinadas condutas se chega um outro, mais oportunista, e cede. Fico achando que nada vai mudar porque sempre vai ter alguém que coloca a ambição individual à frente do bem estar geral.

Você se interessa em ler o que é publicado sobre você? Se incomoda com as críticas?

Pitty: Leio o que me cai nas mãos. Não me incomodo de forma alguma com críticas bem feitas, ninguém é obrigado a gostar das mesmas coisas. Mas é impossível não se sentir injustiçado quando se percebe textos sem embasamento algum, ou movidos por preconceitos e rancor gratuito, ou até a necessidade infantil de pichar o dito establishment (quando nos encaram como tal) que os pseudo-cults amam odiar.

Apesar de ser uma artista que alcançou a alcunha de estrela e que hoje arrasta multidões aos seus shows, você me parece a mesma pessoa acessível, que não se acomodou no sucesso e que está sempre à procura do novo, de coisas diferentes, de formas diferentes, de surpreender seu público e ainda mantêm um contato bacana com seus fãs e com os jornalistas. Já teve medo que o sucesso lhe subisse à cabeça, já precisou controlar isso?

Pitty: Não. Nada disso que você citou pra mim é mérito, é só que deve ser. Algumas pessoas de fora, que não me conhecem de verdade, às vezes encaram certas coisas como estrelismo por causa do meu jeito direto, impulsivo, meio “sincericida” até. Mas eu sou a mesma de sempre, desde que eu era adolescente e mesmo na minha primeira e desconhecida banda era desse jeito. Pro bom e pro ruim, a essência é a mesma.

De oito anos para cá, qual você acha que foi a mensagem mais importante que você tenha conseguido transmitir ao seu público?

Pitty: Rsrsrs, espero que tenha transmitido alguma. Talvez ter coragem de ser, sentir, olhar, cheirar, vivenciar, aprender, errar. Que a gente pode e deve ter autonomia, senso crítico e mente atenta. Será?? Tomara.

E quais suas preocupações, hoje em dia, em relação a sua carreira? Levar suas músicas às massas ou continuar se expressando, independente do sucesso ou de algum suposto fracasso?

Pitty: Continuar se expressando e nunca interromper o fluxo do autoconhecimento e das novas experiências. Claro, continuar vivendo disso e ter sempre mais pessoas ouvindo o som é extremamente importante, numa eterna busca de não sacrificar nenhuma das alternativas anteriores.

Você mantêm um blog onde você explora mais o seu lado escritora e eu diria até com mais sofisticação do que nas próprias letras das músicas, onde muitas vezes a linguagem formal cede espaço para as gírias e afins. Existe algum plano de compilar suas crônicas, podemos esperar que algum dia você compartilhe seus escritos no blog ou até mesmo a histórias das dificuldades, dos perrengues antes do reconhecimento, suas memórias? É algo que você sente vontade de fazer?

Pitty: Nunca tinha pensado de verdade sobre isso até alguns amigos lerem e apontarem essa possibilidade. E são amigos nos quais eu confio muito no gosto literário e na isenção de puxa-saquice. Só então isso me passou pela cabeça, mas ainda não tomei nenhuma atitude concreta nesse sentido. É sedutora a ideia, quem sabe algum dia.

Recentemente você participou da coletânea de livrinhos “Clássicos da Twittoteratura”, onde selecionou suas pequenas frases mais relevantes. Qual foi o critério para a escolha das frases? Ficou feliz com o resultado?

Pitty: Eles fizeram a pré-seleção das frases de acordo com o que tinham lido no meu Twitter e gostado. Me enviaram para que eu sugerisse coisas, tirasse ou botasse alguma, mas estava irretocável. Além do mais, fazia sentido que as frases fossem escolhidas apenas por eles. Acredito que a ideia do projeto não seja eu grifando o que era importante dentro de tudo que escrevi ali, e sim o que chamou a atenção deles. Adorei o resultado e achei a ideia toda muito boa e contemporânea.

Acervo pessoal. Foto: Rafael Kent

Pitty: Escrever me salva do enlouquecimento total desde que me entendo por gente. Descobri ali, muito nova ainda, o quanto as palavras podiam me aliviar e me ajudar nesse eterno processo de autoanálise. É um exercício magnífico. Realmente adoro psicanálise, fiz terapia um tempo e adorei. Escrevi coisas louquíssimas nessa época, minha mente fervilhava o tempo inteiro. Pretendo voltar, assim que conseguir conciliar tudo.

Por falar em Bukowski, soube que é seu autor favorito. O que existe de Bukowski em Pitty?

Pitty: Vixe, mais do que os meus amigos, marido e pessoas próximas gostariam, eu acho. Buk parecia ser daquelas pessoas que de longe são fascinantes, de perto insuportáveis. Consigo manter o meu velho safado adormecido o suficiente para não banir da minha vida todas as pessoas que gostam de mim.

Suas letras são repletas de referências a literatura e ao cinema. Qual o papel da literatura na sua vida, acha que foi essencial na sua construção como artista? E o cinema, qual a influência direta do cinema no seu trabalho?

Pitty: Eu não sei o que seria de mim sem eles. Me refugiava na biblioteca da escola sentindo aquele cheirinho de mofo dos livros velhos, totalmente absorta. Eram de fato grandes companheiros, algumas obras apareceram em momentos determinantes da minha vida e promoveram mudança total de pensamento. O cinema também, certos filmes mexeram tanto comigo que me fizeram escrever, pensar, rever tudo. As duas coisas me alimentam muito, e muitas vezes sem querer acabam escapulindo para as letras das músicas. São sorrateiros, ficam entranhados e escondidos lá no fundo; e quando você percebe estão lá rindo da sua cara num escrito seu qualquer.

Você também é uma artista que sempre chamou a atenção para o seu visual e, uma vez perguntada sobre os fãs que se inspiravam em você, você disse que também tinha suas referências. E me parece um mash-up de referências, no bom sentido. Uma vez chegou a realmente parecer a Bettie Page. É intencional? Qual a importância dessas referências para você, elas ajudam a complementar sua personalidade?

Pitty: Eu sou uma bagunça ambulante nesse sentido, e nunca me privei de experimentar para descobrir. Vê? Continua sendo aquela velha história do autoconhecimento (Oh God!, olhando agora as respostas anteriores pareço uma obcecada com essa ideia fixa – será?). As referências vão mudando mas não se anulam; parece que ao longo da vida elas vão-se somando, se lapidando, e essa junção vai formando uma outra coisa, que no final de tudo talvez seja o “você”. É isso, talvez o “você” venha desse mash-up mesmo, do contrário seria apenas uma xerox.

Por fim, quais as suas expectativas para a turnê do novo DVD? E o que você poderia adiantar do seu projeto Agridoce , em termos de shows e lançamentos?

Pitty: As melhores possíveis, tem show de lançamento em um monte de lugares e também dois shows na gringa agora em julho – Nova York e Miami. A turnê deve durar até o fim do ano ou começo do próximo, imagino eu. E o Agridoce ainda estamos vendo o que fazer. Foi divertido tocar ao vivo, talvez rolem mais alguns shows. Ia ser legal gravar disco também, apareceu uma galera empolgada com essa possibilidade e nos dando força pra isso acontecer. Veremos.                                                                                                                                                                                                                                                               Para comprar (R$12,50) clique aqui                                                                                                                                        

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About Renata Arruda

Redatora e tradutora.

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